No topo da Islândia

Assim que combinei com mais dois amigos que faríamos uma viagem pela Islândia, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi procurar uma montanha para subir. “Iceland highest peak” no Google e lá veio o palavrão: “Hvannadalshnúkur” (pronuncia-se “kwana-talsh-nukyr”), um pico piramidal na borda noroeste da cratera do vulcão Öræfajökull e que é o ponto mais alto da Islândia.” – segundo o Wikipedia. Na mesma pesquisa já veio também como chegar até lá: Icelandic Mountain Guides – a melhor agência de guias de montanha da Islândia, e acho que também a única que existe na ilha.

Hvannadalshnúkur ao fundo, visto do glaciar Vatnajökull

O topo do “Hvannadalsh” está a 2110m de altitude, o que não chega a ser grande coisa. A Pedra da Mina por exemplo, ponto mais alto do Estado de São Paulo, possui 2798m. O grande problema na montanha islandesa é que sua base está quase ao nível do mar e por isso são mais de 2km de elevação em uma trilha de 22km – ida e volta – percorridos entre 10 e 15h em média.

Nosso guias, Martin e Bia, passando instruções sobre os crampons

Na véspera da subida ocorre uma reunião com os guias e demais participantes do “passeio”, na sede da agência, próxima ao centro de visitantes do Parque Nacional Skaftafell. Nessa reunião, todos se apresentam e os guias nos perguntam se já temos algum tipo de experiência prévia em travessia de glaciares, uso de crampons e piolet e se estamos acostumados com caminhadas por longas distâncias e com grande esforço físico. Também nos alertam que os primeiros 600m de subida servirão como um teste de aptidão e que os que não se sentirem bem para continuar, deverão retornar neste ponto. Se você passar deste local e depois desistir de continuar, irá prejudicar todos que estiverem na mesma cordada que você, já que o guia terá que retornar junto e todos os demais também. Por isso, eles enfatizam que todos sejam bem conscientes no momento de tomar a decisão de continuar ou retornar. Ao todo, éramos em doze pessoas, sendo 10 clientes – duas islandesas, quatro norte-americanos, três canadenses e eu, pontepretano – e 2 guias – Martin, alemão de Stuttgart, e sua esposa Bia, brasileira de São Paulo. Quem diria! Encontrar uma guia de montanhas brasileira tão longe de casa! Pedi à Bia que se possível eu ficasse na mesma cordada que ela, já que meu inglês não é lá essa fluência toda.

Hotel da véspera

Reunião encerrada, fui organizar os equipamentos e tentar descansar um pouco. O plano era dormir no carro e acordar às 2h da manhã para trocar de roupa, comer alguma coisa e encontrar os guias e os demais às 3h. Péssimo plano, já que foi quase impossível pegar no sono devido ao frio e à ansiedade. Se eu fechar as janelas do carro, será que não vou sufocar aqui dentro? Será que a bota alugada não vai me machucar? Por que não trouxe a minha própria bota? Será que teremos muito vento? Minhas roupas vão dar conta se tiver muita neve? Fui o primeiro a chegar no ponto de encontro, e logo depois, chegaram Bia e Martin com a van que nos levaria até a base da montanha, à uns 15 minutos dali.

Primeiro trecho de subida

Os tais primeiros 600m de elevação realmente te fazem repensar se deve continuar ou não, e um casal de norte-americanos achou melhor desistir e retornar a partir dali. Para alguns uma decisão dessas pode ser vista como um fracasso, mas sem dúvida, reconhecer as próprias limitações e evitar prejudicar o resto do grupo com uma desistência posterior foi uma grande demonstração de humildade.

Parada para colocar os crampons

Por volta dos 1000m de elevação, o trecho de rochas expostas fica para trás e surge um enorme campo de gelo que parece infinito. Trata-se de uma borda do glaciar Vatnajökull, a segunda maior calota de gelo da Europa e que cobre 8% do território da Islândia. A espessura de sua camada de gelo pode atingir até 1km. Nesse momento, fizemos uma parada para colocar os crampons e nos encordarmos. Nota do autor: fui o primeiro a terminar de colocar os crampons e ganhei até um elogio do guia alemão: “Super! Not bad for a brazilian!”. Não sei se disse isso pra me incentivar ou para tirar onda com a esposa brasileira!

O Sol indica onde fica o céu

Por diversas vezes durante a subida precisamos interromper o passo para colocar ou retirar camadas de roupas para tentar regular a temperatura. O tempo estava bem frio e bem fechado, com pequenos chuviscos de neve e um pouco de vento. Porém, quando o Sol mostrava um pouco sua força e estávamos nos movimentando, o calor era muito grande e nessas condições a tendência é que as roupas fiquem rapidamente molhadas de suor. Quando isso acontece é terrível, pois minutos depois, o frio volta ainda mais forte.

No topo da Islândia

Depois de 7h de caminhada chegamos ao topo. A visibilidade estava bem limitada por causa de um “whiteout” que nos acompanhou quase o tempo todo. Ficamos por volta de uns 40 minutos no cume descansando, comendo lanches e tirando fotos. Metade do caminho percorrido, era hora de começar a descida. O cansaço já era grande e a neve, por causa do horário e do tempo mais quente, ficou muito fofa no caminho de volta. Por vezes, a cada passo dado a perna afundava na neve até os joelhos.

Pesadelo branco

Depois de umas 3h cruzando o glaciar, quando eu já tinha certeza que estava preso em um pesadelo branco sem fim, chegamos novamente na parte de rochas e pudemos retirar os crampons das botas. Logo depois, uma das canadenses do meu grupo, torceu o joelho ao escorregar em uma pedra e tivemos que parar por uns 10 minutos até que ela se sentisse em condições de continuar. Com ela seguindo na frente do grupo, lentamente seguimos descendo, já sem a necessidade da utilização de cordas ou capacetes.

Descendo sobre rochas

No final, depois de 5h de descida, veio o alívio de enxergar novamente a estrada que nos levaria de volta até o Parque Skaftafell. Só nesse momento que me dei conta de que havia ingerido todos os 3 litros de água que levei e nem sequer uma única vez parei para fazer xixi, tamanho o esforço físico que foi necessário. Chegando ao Parque, me despedi do resto do grupo e corri pra comprar uma ficha que me daria direito à um merecido banho com água quentinha nos chuveiros do camping, roupas secas e um calçado confortável logo depois. O corpo destruído de cansaço mas com um sentimento de grande satisfação por ter conseguido ir até o fim. Não se trata de uma montanha técnica, que exija grandes conhecimentos de escalada. O básico você aprende na hora mesmo, como por exemplo, manter a corda sempre do lado mais exposto da enconsta e retirar a neve acumulada nos crampons sem precisar parar o tempo todo. Além disso, depois de um tempo você pega o jeito do tal “keep the rope smiling” de forma que o trecho de corda entre você e quem vai à frente forme um arco, sem que fique esticada demais ou frouxa demais caída no chão.

Até a próxima e boas escaladas!

Olhando essa foto percebi a quantidade de sais eliminados e acumulados no rosto por causa da transpiração

Laguna Torre

El Chaltén é uma pequena cidade na Patagônia considerada a capital nacional do trekking na Argentina. Fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, e a partir dela, é possível percorrer diversas trilhas aos pés de suas principais montanhas – o Cerro Fitz Roy, ou El Chaltén, que deu o nome à cidade, e o Cerro Torre, que já foi considerado por muitos escaladores como a montanha mais difícil do mundo e, por um certo tempo, até mesmo impossível de ser escalada – uma inacreditável torre de granito com cerca de 1200 metros praticamente verticais da base até o cume.

1

Trilha congelada no início da manhã

Em nosso segundo dia na cidade, Pri e eu saímos cedo para a trilha de 11 km até a Laguna Torre, relativamente próxima à base da montanha. São 4 horas de caminhada para se chegar até ela e mais 4 para retornar, além do tempo que você permanece no local e as paradas para comer e sacar fotos. Desde El Chaltén, existem duas trilhas que se unificam em um único sendero logo depois de 5 minutos de caminhada e que segue pelo vale do rio Fitz Roy. A noite tinha sido de muito frio e atravessamos uma área com imensas poças d’água congeladas. Na metade do trajeto, se chega à um mirador com uma impressionante vista panorâmica de toda a cadeia de montanhas que inclui a Torre Egger ¹ e o Fitz Roy, à direita do Cerro Torre

2

Mirador Cerro Torre

Mais duas horas de caminhada e chegamos ao acampamento De Agostini, já bem próximos à Laguna, onde fizemos uma pausa para lanchar. Mais alguns metros de subida e finalmente avistamos a Laguna Torre. Diversos blocos de gelo flutuavam na superfície da laguna depois de se desprenderem do Glaciar Grande, localizado ao fundo.

4

Pausa para o lanche no acampamento De Agostini

Encostei em uma pedra para descansar e observar aquele lugar quase surreal. Logo me peguei tentando respirar o mais profundo que podia, enchendo os pulmões com o ar gelado, como se isso pudesse me ajudar a gravar aquelas imagens na memória de forma a nunca mais me esquecer.

6

Priscilla e Fernando sem fôlego

Ficamos ali juntos por um bom tempo e em seguida partimos para a subida até o Mirador Maestri ². Mais uma hora de caminhada até chegarmos em uma parte alta na lateral direita da laguna. Não é uma distância grande mas o caminho é cheio de pedras soltas e precisa ser percorrido com bastante cuidado.

img_9519

Mirador Maestri

No caminho de volta, me fiz uma pequena promessa de algum dia retornarmos para passar a noite no acampamento e conseguir ver as torres iluminadas pelo nascer do sol. Um reencontro com o lugar mais bonito do meu mundo até aqui. E que assim seja.

¹ Toni Egger e ² Cesare Maestri supostamente foram os dois primeiros escaladores a atingirem o cume do Cerro Torre em 1959. Egger morreu em uma avalanche quando retornavam da montanha e segundo Maestri, levou consigo as fotos que comprovariam a subida até o topo. Com sua façanha questionada, Maestri retornou em 1970 com uma furadeira acionada por um enorme compressor de ar que utilizou para perfurar a rocha e fixar as proteções, mas essa já é uma outra história..