Guia Prático do Trekking Independente ao Campo Base do Everest

 


Incluindo Cho La Pass e Vale de Gokyo, sem guias e sem carregadores.

Abril – 2018

Fernando Marcos Jr. e Priscilla Vergueiro

Este Guia Prático do Trekking Independente ao Campo Base do Everest é a compilação de diversas fontes de informações que encontramos na internet durante o planejamento da nossa viagem. Além disso, acrescentamos comentários, dicas e percepções que tivemos durante a caminhada. Foram 15 dias percorrendo as trilhas até o Campo Base do Everest incluindo o caminho de volta através do Cho La Pass e Vale de Gokyo, sem contratação de agências ou carregadores. Com este Guia esperamos ajudar outras pessoas a realizarem o sonho de conhecer uma das regiões mais incríveis do nosso planeta.

Dia 04 de Abril de 2018 , chegada ao Campo Base do Everest.

Sherpas

Namastê! Antes de continuarmos, esqueça a palavra “independente” do título deste Guia. Durante o trekking ao Campo Base do Everest, você estará totalmente na dependência do povo Sherpa. São eles que carregam montanha acima toda a comida e suprimentos que você irá precisar. São eles que constroem e mantêm em funcionamento os lodges onde você irá se aquecer, descansar e dormir. São eles que vão te indicar qual o caminho a seguir quando você ficar em dúvida em alguns trechos da trilha. Por isso, procure aprender um pouco sobre seus costumes antes de viajar e seja sempre respeitoso com suas tradições. Não fique pechinchando descontos nos valores das hospedagens ou nos preços cobrados pela alimentação. Eles levam um vida muito difícil, e um dólar a menos para eles fará muito mais diferença do que um dólar a mais para você. Fique atento à aproximação dos carregadores quando estiver caminhando e dê sempre passagem, preferencialmente pelo lado menos exposto quando for um trecho de barranco. Em geral os carregadores estão com a cabeça baixa, olhando para o chão e com grandes cargas nas costas, portanto, terão muito mais dificuldades do que você para sair do caminho. Nunca se esqueça de que sem os Sherpas esse trekking não seria possível para simples mortais como nós.

Pri entregando caixas de giz de cera que levamos para dar de presente aos pequenos sherpinhas

Trekking Independente X Contratação de Agências

Cada um tem suas razões pessoais para fazer o trekking de forma independente. Pode ser para economizar dinheiro, liberdade para seguir em seu próprio ritmo, flexibilidade para montar o roteiro, entre outras. Mas se você não se sente confiante ou não tem companhia para a trilha (ir sozinho não é uma boa ideia), uma opção é a contratação de uma agência para organizar o seu trekking. Assim, você não precisará se preocupar com quase nada além de apenas caminhar. Você pode contratar uma agência diretamente em Kathmandu, mas não conhecemos nenhuma que possamos indicar. Se você puder contratar uma agência no Brasil, a Grade6 (site: www.grade6viagens.com.br) ou o  Manoel Morgado (site: www.morgadoexpedicoes.com.br) são com certeza ótimas opções. Até hoje, nas 30 oportunidades em que um brasileiro chegou ao cume do Everest, em 14 delas a Grade6 estava envolvida na expedição. Assim, te levarem em segurança somente até o acampamento base está longe de ser um problema. Já Manoel Morgado, escalou o Everest em 2010 e já guiou mais de 60 grupos até o Campo Base da montanha. Durante a realização do nosso trekking, tivemos o prazer de conhecer o Manoel no dia que estivemos no Campo Base e também encontramos com o pessoal da Grade6 no dia que retornávamos à Lukla, no início da caminhada deles e já no final da nossa. Foram os únicos brasileiros que encontramos durante todos os dias de caminhada.

A caminho do Campo Base do Everest, sem guias e sem carregadores.

Experiências prévias

Escalar a montanha mais alta do planeta certamente não é para qualquer um, mas caminhar até o seu acampamento base já é outra história. Todos os anos, cerca de 35 mil pessoas percorrerem com sucesso a trilha até o Campo Base do Everest. Gente de todas as idades, formas e tamanhos. Qualquer pessoa com uma saúde física razoável consegue concluir essa trilha. Mas é importante que você saiba onde está se metendo e conheça como sua cabeça reage em situações de cansaço e esforço físico por dias seguidos, carregando além do próprio corpo, uma mochila entre 12 e 15 kg. Você pode se preparar aqui no Brasil mesmo, correndo em parques, subindo escadas, caminhando, ou melhor ainda, percorrendo outras trilhas. No nosso caso, em anos anteriores havíamos percorrido algumas trilhas que nos ajudaram a ganhar uma certa confiança: subimos até a Pedra do Sino e os Castelos do Açu, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos; circuito Couto-Prateleiras no Parque Nacional do Itatiaia; subida até a Pedra da Mina, na Serra Fina; bate e volta no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira. Essa confiança adquirida, porém, não tem nada a ver com preparo físico. Repare que não há grandes travessias como a da Serra Fina ou a famosa Petrópolis-Teresópolis e, com exceção do trekking até a Pedra da Mina, todos os outros são considerados trekkings leves ou moderados, desde que você não queira carregar uma tonelada nas costas. Por isso é importante fazer alguns desses treinos para ganhar experiência na hora de escolher o que de fato é necessário levar na sua mochila. Nas semanas anteriores à viagem ao Nepal estávamos bem enferrujados, de ressaca do carnaval e fizemos somente duas caminhadas entre Guaratinguetá/SP e Aparecida/SP  (15 km, ida e volta, em terreno plano e asfaltado) e subimos no Pico Agudo em Santo Antônio do Pinhal/SP (16 km, ida e volta, por ruas e estrada). Considero que a subida da Pedra da Mina foi a caminhada que mais nos deu confiança para encarar qualquer outro trekking. Foram 7 horas de subida carregando cerca de 12 kg nas mochilas. Nessa trilha existem muitos trechos de longas subidas para logo em seguida descer tudo de novo e voltar a subir. Isso mexe com a sua cabeça e te ajuda na preparação psicológica.

Primeira visão das grandes montanhas.

Do Brasil para o Nepal

Sua primeira tarefa é chegar em Kathmandu, capital do Nepal. Não há voos diretos do Brasil para lá, por isso nós fomos de São Paulo para Bangkok, na Tailândia, pela Ethiopian Airlines e depois, de lá para Kathmandu, pela Thai Airways. Também há voos com conexões em países do Oriente Médio e voos com conexões na Europa. Verifique qual a melhor opção para você. Espere gastar cerca de US$ 1.500,00 com essa passagem aérea de ida e volta.

Conhecendo Patan Durbar Square, Patrimônio Cultural da UNESCO em Kathmandu.

Quando ir

Existem duas estações de trekking distintas, sendo que os melhores meses para caminhar até o Campo Base do Everest são na pré-monção (março, abril e maio) e na pós-monção (final de setembro, outubro e novembro). Nosso trekking foi realizado entre os dias 27/03/2018 e 11/04/2018, portanto, na pré-monção. Pelo que pudemos perceber nos últimos dias de caminhada, em abril, as trilhas já estão muito mais cheias e pode haver alguma dificuldade para conseguir vagas de hospedagem nos lodges das vilas menores. Nossa sugestão é iniciar o trekking na segunda metade de março ou no final de setembro, no começo das respectivas temporadas.

As trilhas ficaram visivelmente mais movimentadas no começo de abril quando retornávamos.

Onde dormir

Não é preciso acampar ou dormir em barracas durante o trekking. Por todo o percurso existem diversos lodges ou “Tea Houses” com uma infraestrutura razoável e um mínimo de conforto. Todos são muito parecidos, com uma grande sala de refeições com um aquecedor no centro, cujo fogo é alimentado geralmente com esterco seco de iaque (um tipo de boi que vive na região), quartos com duas camas de solteiro ou uma cama de casal e banheiros bastante simples. As camas possuem lençol, travesseiro e cobertores. Nós levamos uma fronha e também um saco de dormir não muito quente (temperatura de conforto de 10ºC). Muitos levam sacos de dormir para temperaturas de até -20ºC, mas isso definitivamente não é necessário. Dormindo bem agasalhado, o saco de dormir foi até dispensável em algumas noites, pois os cobertores disponíveis eram bem grossos e suficientes para nos manter aquecidos. É claro que se você quiser dormir pelado, aí é outra história. A maioria dos banheiros que encontramos possuía vasos sanitários, mas alguns tinham apenas uma latrina e um tambor com água para jogar depois de utilizá-los. Nas vilas mais altas, os banheiros não possuíam pia e nem torneira, o que nos obrigava a lavar o rosto e escovar os dentes com uma garrafinha de água. É difícil lavar as mãos com a água gelada, portanto, um banho frio está fora de cogitação. Prepare-se para ficar pelo menos uns 10 dias sem tomar banho. Um pacote de lenços umedecidos é a saída. Se bater o desespero, alguns lodges oferecem “hot showers” por US$ 4,00 ou US$ 5,00 mas é uma operação bastante complexa tomar um banho de balde e canequinha quando a temperatura está bem próxima de zero grau. Não se assuste, os banheiros não são tão ruins quanto possam parecer.

Em algumas noites a temperatura dentro do quarto chegou a -4ºC.

Altitude e aclimatação

Seguindo o roteiro tradicional do trekking ao Campo Base do Everest, você iniciará  trilha em Lukla, à 2.860 m de altitude e, oito dias depois, atingirá seu ponto mais alto no topo do Kala Patthar, com 5.643 m. Já no segundo dia, em Namche Bazaar (3.340 m), espere começar a sentir com mais força os efeitos da altitude. Respiração ofegante, taquicardia em repouso, dificuldades para dormir, falta de apetite, náuseas e dores de cabeça são os sintomas mais frequentes. Para ajudar no processo de aclimatação, estão previstos 2 dias de descanso durante o trekking. Em hipótese alguma deixe de cumprir essas etapas de aclimatação. Se não se aclimatar corretamente, no melhor caso você poderá apenas comprometer o seu trekking e não conseguir concluí-lo. No pior caso, você pode ter um edema pulmonar ou cerebral e precisar ser evacuado de helicóptero. Beba no mínimo 3 litros de água por dia. Em um ambiente como estes com ar rarefeito, ao detectar a baixa presença de oxigênio na atmosfera, o corpo começa a produzir mais glóbulos vermelhos. O aumento na presença destes, junto com a desidratação devida ao ar extremamente seco, faz com que o sangue fique mais espesso, o que pode trazer problemas à tecidos pulmonares e cerebrais. Não se assuste com sangramentos nasais, eles são comuns e ocorrem normalmente por causa do ressecamento da mucosa do nariz e o rompimento de pequenos vasos sanguíneos, não tendo relação com o temido edema pulmonar.  Sobre os os medicamentos que podem ser utilizados e os sintomas das doenças de altitude, não deixe de ler o artigo completo do site Alta Montanha indicado nas referências deste Guia. Se você decidir realizar o trekking de forma independente, precisará saber cuidar de si mesmo e de sua companhia de caminhada.

Dia de caminhada e aclimatação próximo à Namche Bazaar.

Água potável

Você precisa ingerir no mínimo 3 litros de água por dia para minimizar os efeitos da altitude. Não cometa o erro de não se hidratar pois poderá comprometer todo o seu trekking. Um litro de água vendido ao longo da trilha costuma custar cerca de US$ 1,00 nas localidades mais baixas, podendo chegar à US$ 4,00 nas vilas mais altas. Nós optamos por levar um filtro chamado Sawyer Mini. Ele é bem pequeno e vem acompanhado de um squeeze que utilizamos para encher nossas camelbaks todos os dias quando chegavamos nos lodges, deixando tudo pronto para o dia seguinte. Nesse site você encontra uma análise completa de todos os filtros disponíveis: https://sectionhiker.com/sectionhiker-gear-guide/10-best-backpacking-water-filters-2018. Caso você não consiga adquirir nenhum deles, terá que comprar água nos lodges no decorrer da trilha ou utilizar pastilhas de purificação como o Clor-in.

Filtrando água usando o Sawyer Mini.

Alimentação

Comemos muito bem em quase todos os dias da trilha ao Campo Base do Everest. Pizzas, pastas, sopas variadas, chás, “milk coffee”, brownies, bolos, ovos mexidos, omeletes, pães e Dal Bhats, comida tradicional do subcontinente indiano com arroz e lentilha. Evite apenas comer carne pois as condições sanitárias não são das melhores e as chances de contrair uma problema intestinal serão muito maiores. Felizmente em nenhum momento tivemos problemas com a alimentação. Leve uma ou das barras de chocolate e coma um pedacinho para se auto premiar no final de cada dia ou se precisar de energia extra durante a trilha.

Cardápio nos lodges com opções variadas.

Roupas e calçados

Você deve se vestir em camadas durante o dia de forma a facilitar o controle do seu conforto térmico. Ao iniciar a caminhada com temperaturas negativas pela manhã, provavelmente tentará usar todas as roupas que tiver. Porém, com 10 minutos de caminhada a tendência é que você comece a transpirar. Evite o suor o máximo que puder. Ele molha suas roupas e faz você congelar ao menor sinal de vento ou quando pára para descansar. Utilize uma segunda pele ou camisa dry-fit de manga longa, um fleece e um anorak. A calça pode ser uma de tecido sintético de secagem rápida quando estiver com tempo bom ou uma impermeável caso esteja nevando. Nos dias mais frios, como na subida ao Kala Patthar, recomendo utilizar uma segunda pele em cima e embaixo (blusa e calça), como as ThermoPlus da Curtlo. Uma blusa de penas também é necessária para os dias mais frios e pode ser comprada no bairro de Thamel em Kathmandu. Lá existem dezenas de lojas que vendem roupas de marcas famosas mas que em geral são falsificadas. Compramos blusas de penas da marca The North Face, ou “The North Fake” como dizem, por cerca de ¼ do preço de uma blusa original e de qualidade razoável, mais do que suficiente para o trekking. Não utilize nada de algodão, principalmente meias ou camisetas. Utilize uma bota de trekking impermeável com Gore-Tex e cano alto que dê estabilidade ao tornozelo. Meias específicas para trekking são altamente recomendadas para as altitudes mais baixas e meias de lã merino da marca Lorpen para a parte mais alta e dias mais frios. Leve uma meia Lorpen mais grossa e uma liner. Um chinelo ou um Crocs são importantes para deixar os pés respirarem quando você estiver nos lodges. Você precisará também de um óculos de sol com proteção UV categoria 4. Bandanas ou Buffs também são importantes para ajudar a proteger o rosto e as orelhas. Um chapéu ou um gorro também são recomendados. A radiação solar em grandes altitudes pode te trazer sérios problemas. Não se esqueça de um bom protetor solar de no mínimo 60 fps. Uma lista completa do que nós levamos pode ser encontrada no final do Guia.

Pri irreconhecível com todas as roupas.

Vistos

Para nós brasileiros, o visto de turista pode ser obtido na chegada ao Nepal, sendo necessário preencher um formulário e apresentar uma foto 5X7. O formulário está disponível no hall de chegada do aeroporto e nos postos de fronteira e pode ser baixado antecipadamente no site www.treks.com.np/visa. Os vistos de única entrada com duração de 15/30/90 dias custam US$25/40/100, respectivamente. No aeroporto de Kathmandu, o pagamento é aceito em diversas moedas, porém, na fronteira, as autoridades exigem o pagamento em dólares norte-americanos (fonte: Itamaraty). Para economizar tempo nas filas, baixe e preencha previamente o formulário de visto e leve dólares norte-americanos no valor exato do visto a ser obtido (para 15, 30 ou 90 dias). No nosso caso, obtivemos o visto para 30 dias, tempo suficiente para passar alguns dias na capital Katmandu e para a conclusão do trekking.

Trekking permits

A princípio, todos os praticantes de trekking no Nepal deveriam adquirir o cartão TIMS (Trekkers’ Information Management Systems). O Cartão TIMS costuma ser obrigatório para garantir a segurança dos caminhantes na maioria das áreas de trekking. Entretanto, atualmente existe uma descentralização no controle e recolhimento de taxas que deu mais direitos às autoridades locais, de forma que o TIMS não é mais exigido para o trekking ao Campo Base do Everest (mas continuava obrigatório para o trekking do Annapurna, por exemplo). Um novo sistema de autorização local é aplicado e o permit deve ser adquirido em Lukla por 2.000 rúpias nepalesas (US$ 20,00). Além dessa taxa para o governo local, também é preciso recolher uma taxa de entrada no Parque Nacional de Sagarmatha por 3.390 rúpias (US$ 34,00) e que pode ser paga tanto em Kathmandu como na entrada do parque no vilarejo de Monjo. Em resumo, aqui estão os detalhes das permissões necessárias para o trekking ao Campo Base do Everest:

  • Permissão de Entrada no Parque Nacional de Sagarmatha – custa 3.390 NPR por pessoa (US$ 34,00) e pode ser emitido no Nepal Tourism Board em Kathmandu ou em Monjo, na entrada do Parque.
  • Autorização de Entrada Local – custa 2.000 NPR por pessoa (US$ 20,00) e deve ser emitido na saída do vilarejo de Lukla.

Tourism Board em Kathmandu

Quando chegamos em Kathmandu, as informações que tínhamos conseguido na internet eram contraditórias e ainda não estava claro para nós se a obtenção do TIMS era ou não obrigatória. Como tanto o TIMS quanto a taxa do Parque Nacional poderiam ser pagos no Nepal Tourism Board, fomos para lá para esclarecer nossas dúvidas. Como confirmaram que o TIMS realmente não era mais obrigatório para o  Campo Base do Everest, recolhemos ali somente a taxa do Parque Nacional e, ao chegarmos em Lukla, recolhemos a taxa do governo local. Como a dispensa do TIMS parece ser algo recente, recomendamos a ida até o Tourism Board para recolher a taxa do Parque Nacional e checar a exigibilidade ou não do TIMS.

Taxa recolhida ao governo local em Lukla

Seguro viagem

Não é obrigatório que você contrate um seguro para realizar o trekking ao Campo Base do Everest. Ninguém irá exigir isso de você. Porém, na prática, é um risco muito grande não contratar um seguro. Não existem estradas na região, qualquer pequena lesão que te impeça de caminhar, uma simples torção de tornozelo, fará com que você tenha que ser removido de helicóptero para o hospital mais próximo, ou seja, para Lukla ou Kathmandu. E um resgate de helicóptero poderá te custar uma pequena fortuna, algo entre 4 mil e 6 mil dólares. Nem todos os seguros viagem cobrem remoção médica para praticantes de trekking acima de 3.000 metros. Nós contratamos um seguro pela World Nomads (www.worldnomads.com.br) que cobre remoção médica para praticantes de trekkings até 6.000 metros. Leia cuidadosamente as condições do contrato, mas basicamente, em caso de necessidade, você precisará entrar em contato com eles por telefone antes de acionar uma eventual remoção.

Custos totais por pessoa

A partir do momento que chegamos no Nepal, os valores abaixo corresponderam aos nossos gastos por pessoa para a realização do trekking de forma independente. Dormimos duas noites em Kathmandu antes do trekking para termos tempo de providenciar os permits  e outras duas noites após retornarmos de Lukla.

Passagem aérea de Kathmandu-Lukla-Kathmandu: US$ 340,00
Seguro viagem com cobertura de remoção médica até 6 mil metros: US$ 100,00
Visto de turismo para 30 dias: US$ 30,00
Taxa do Parque Nacional de Sagarmatha: US$ 34,00
Taxa do governo local em Lukla: US$ 20,00
4 diárias de hospedagem em Kathmandu: US$ 60,00
Alimentação, transporte e passeios em Katmandu: US$ 150,00
15 dias de trekking (média de US$ 30,00 por dia / pessoa): US$ 450,00
TOTAL por pessoa = US$ 1.184,00

Portanto, com menos de US$ 1.200,00 dólares é possível pagar todas as despesas do trekking ao Campo Base do Everest. Acrescente à esse valor o preço da passagem do Brasil para Kathmandu e a aquisição dos equipamentos necessários (mochila, bota de trekking, roupas de frio, etc).

A caótica e empoeirada Kathmandu

O roteiro

As altitudes a seguir indicadas se referem ao local onde você dorme, os valores já convertidos em dólares representam os gastos de uma pessoa. Quando viajamos, o câmbio era de US$ 1,00 = 100 NPR (rúpias nepalesas). O tempo total de caminhada indicado inclui todas as paradas para fotos, descansos rápidos e alternância nas camadas de roupas utilizadas (tirar a mochila, tirar a blusa, guardar a blusa, recolocar a mochila e seguir caminho).

Trilha ao Campo Base do Everest

Dia 01 – Kathmandu (1.400 m) -> voo até Lukla (2.860 m) -> Monjo (2.800 m): Chegamos por volta das 5:00 da manhã no aeroporto de Kathmandu para pegarmos o primeiro voo do dia para Lukla. Procure sempre reservar o voo do primeiro horário do dia, pois isso maximiza suas chances de não ter o voo cancelado ou atrasado. Nossas passagens foram compradas em novembro de 2017, portanto, com 4 meses de antecedência. O aeroporto de Lukla é famoso pelo mau tempo que faz com que seja comum o atraso e cancelamento de voos. Nosso voo pela Yeti Airlines decolou às 6:10 e às 6:45 já pousamos no aeroporto de Lukla. Retiramos nossas mochilas e fomos tomar café da manhã (US$ 8,40) logo na saída do aeroporto. Cada mochila estava pesando cerca de 11 kg. Compramos 3 litros de água (US$ 1,00 o litro) e alugamos um par de bastões de trekking (US$ 12,00 por 15 dias). Dividimos a água enchendo nossas camelbaks e assim, cada mochila ficou com aproximadamente 12,5 Kg. Na saída de Lukla, paramos no posto de checagem para nos registrar e pagar a taxa do governo local (US$ 20,00). Às 8:30 começamos a caminhar e às 11:30 chegamos em Phakding. Muitos trekkers costumam dormir aqui, mas achamos que é muito pouco o trajeto percorrido e preferimos adiantar um pouco mais o primeiro dia, dormindo mais pra frente no caminho. Em Phakding tomamos uma sopa de alho, muito boa para ajudar na aclimatação, e um café (US$ 3,50 tudo). Retomamos a caminhada às 11:50 e às 14:10 chegamos ao vilarejo de Monjo. Nos hospedamos no Monju Guest House (US$ 5,00 pelo quarto duplo com banheiro e chuveiro e US$ 16,00 por um menu que incluía o jantar e o café da manhã do dia seguinte). Tempo total de caminhada: 5h20.

MonjuGuestHouse

Vilarejo de Monjo e o lodge onde passamos a primeira noite do trekking

Dia 02 – Monjo (2.800 m) -> Namche Bazaar (3.340 m):  Tomamos café da manhã e começamos a caminhar às 8:45, chegando em Namche Bazaar às 12:30. Nos hospedamos no Hotel Khangri (US$ 15,00 a diária em quarto duplo). Essa hospedagem é possível reservar previamente pelo site Booking.com. Após deixar as mochilas no hotel, fomos até um restaurante chamado Sherpa Barista para almoçar (US$ 12,50 por um sanduíche enorme de frango BBQ e um café latte). Tempo total de caminhada: 3h45.

ChegadaNamche

Primeira visão de Namche Bazaar. Até esse ponto é possível usar óculos de sol normais.

Dia 03 – Namche Bazaar (3.340 m) – dia de aclimatação: a ideia de um dia de aclimatação é permitir que seu corpo vá se adaptando à baixa concentração de oxigênio e com isso minimizar a aparição dos sintomas do mal de altitude. Saímos às 8:15 na tentativa de percorrer a trilha que leva até o Hotel Everest View (3.880m). Entretanto, nos desviamos em uma bifurcação logo na saída de Namche e com isso fomos parar perto do vilarejo de Khumjung. Pedimos informações para uma senhora que nos indicou o caminho correto e conseguimos chegar ao Hotel às 11:45. Comemos um sanduíche de queijo e tomamos um chocolate quente (US$ 16,50, o que é muito caro!). Às 12:45 começamos a descer e às 14:15 chegamos de volta à Namche. Tempo total de caminhada: 5h00.

DiaAclimatacao

Dia de caminhada para aclimatação

Dia 04 – Namche Bazaar  (3.340 m) -> Tengboche (3.860 m): O tempo amanheceu bastante fechado e com muita neve, por isso saímos de Namche um pouco tarde, às 8:00, e usando as calças impermeáveis. Às 11:00 chegamos no ponto mais baixo do dia, o vilarejo de Phunke Tenga, onde trocamos de calças e tomamos um chá de limão com mel e gengibre (US$ 1,50). Passamos por um checkpoint da polícia e às 11:30 iniciamos uma longa subida de mais de 600 metros, saindo de 3.250m até 3.860m, chegando em Tengboche às 13:30. Ficamos no lodge Tashi Delek (US$ 4,00 o quarto duplo), bem em frente ao monastério da vila. Fomos até a padaria próxima e tomamos um café com leite (US$ 2,00) e comemos um brownie (US$ 4,50). Às 15:00 participamos de uma cerimônia diária de oração dentro do monastério, o maior da região. A cerimônia durou cerca de 45 minutos e quando saímos o tempo tinha fechado e nevava bastante. Preços das refeições cobradas no lodge: chá de limão com mel e gengibre (US$ 6,00 uma garrafa térmica de 1 litro), sopa de vegetais (US$ 4,00), Fried Noodles with Cheese (US$ 6,00), Continental Breakfast (US$ 7,00, pão, ovo mexido e café com leite ou chá). Foi o primeiro dia sem banho no trekking. Haveriam mais 9 pela frente. A noite foi a mais fria até o aquele momento, chegando a marcar -0,5°C dentro do quarto. Tempo total de caminhada: 5h00.

Tengboche

Lodges vistos a partir do monastério de Tengboche

Dia 05:  Tengboche (3.860 m) -> Dingboche (4.410 m): Acordamos às 5:30, o café foi servido às 6:30 e começamos a caminhar por volta das 7:30. Chegamos à vila de Somare às 10:30, ultrapassando a cota dos 4.000m de altitude. Paramos para descansar e tomar chá de limão, nosso famoso Hot Lemon Ginger Honey (US$ 1,50). Chegamos em Dingboche às 12:30. Tínhamos indicações para ficar no lodge Snow Lion, logo na entrada do vilarejo, mas quando chegamos não haviam mais vagas. Andamos mais alguns minutos observando os lodges e escolhemos o Himalayan Culture Home. O dono nos recebeu e disse que a hospedagem era gratuita, desde que fizéssemos nossas refeições ali (jantar e café da manhã). Deixamos nossas mochilas no quarto e fomos almoçar no Café Himalaya (um cheese omelette e um hot chocolate por US$ 7,00). Às 15:30, assim como no dia anterior em Tengboche, começou a nevar bastante. Antes de dormir, Pri tomou meio comprimido de Diamox pois estava com muita dor de cabeça. Tempo total de caminhada: 5h00.

Dingboche

Vista de Dingboche pela manhã, no dia seguinte à nossa chegada.

Dia 06: Dingboche (4.410m) – dia de aclimatação: era 1º de abril e Pri me disse que não estava se sentindo bem e que queria desistir e voltar. Foram 30 segundos de aflição até eu perceber que era brincadeira dela pelo dia da mentira. Vai ter troco, essa! Tomamos café da manhã e saímos às 8:15 para subir até onde conseguíssemos uma montanha que fica atrás do vilarejo, o Naugkartshang Peak (5.083m). Não sei até que altitude subimos, mas após certo ponto estava bastante escorregadio por causa da neve e do gelo e decidimos retornar. Descendo ao vilarejo, paramos na padaria que existe ao lado do lodge Snow Lion, a French Bakery (um hot chocolate, um bolo ruim chamado Marble cake por US$ 10,00). Também compramos um cartão de wi-fi pré-pago Everest link por US$ 6,00 e 200MB de dados, suficientes para mandar algumas mensagens e dar sinal de vida. Almoçamos em outra padaria, Mama’s Bakery (uma apple pie e um milk coffee por US$ 5,50). Retornando ao lodge, encontramos o dono saindo para guiar um grupo ao Island Peak (6.189m), à duas horas de caminhada dali e uma das montanhas mais acessíveis da região. Mais tarde, conversando com a esposa dele, ela nos contou que ele tinha 28 anos de idade e que já havia feito cume no Everest em oito oportunidades, mas que agora, com uma filha pequena pra cuidar, ele não escalava e nem guiava mais em montanhas de 8 mil metros, apenas em montanhas “six thousand”. Tempo total de caminhada: não anotado.

Dingboche2

Caminhada de aclimatação no Naugkartshang Peak com Dingboche abaixo, à esquerda na foto.

Dia 07:  Dingboche (4.410m) -> Lobuche (4.950 m): Após café da manhã, saímos às 7:45 e às 9:45 chegamos em Thukla. Esse trecho é praticamente plano e do lado esquerdo você observa bem de perto o Taboche (6.542m) e o Cholatse (6.440m). Pri se sentia muito bem e eu estava morrendo, com a garganta arranhando e muito frio nos braços. Em Thukla tomamos chá de limão (US$ 2,00). Retomamos a caminhada às 10:00 e às 11:00 terminamos a subida até os memoriais aos mortos no Everest. Às 11:45 chegamos em Lobuche. Nessa vila, você paga uma taxa única de hospedagem em um posto de controle logo na entrada (US$ 5,00) e informa em qual lodge você vai dormir. Escolhemos o New EBC Guest House. Deixamos as mochilas no quarto e fomos até a Highest Bakery, que orgulha de ser a padaria mais alta do mundo (um hot chocolate e um brownie por US$ 10,00). Com o cartão wi-fi, olhamos a previsão do tempo no site mountain-forecast.com e vimos que haveria uma janela de tempo bom para o dia seguinte no Kala Patthar e decidimos sair bem cedo para chegar em Gorak Shep a tempo de subir a montanha antes do meio-dia. Dormimos muito mal por causa do calor, pois colocamos muitos cobertores e a cama virou um forno. Tempo total de caminhada: 3h45.

CaminhoLobuche

A caminho de Lobuche

MemorialScottFischer

Memoriais aos mortos no Everest

Dia 08: Lobuche (4.950 m) -> Gorak Shep (5.164 m) -> Kala Patthar (5.643 m) -> Gorak Shep (5.164 m): Acordamos às 5:00, o café foi servido às 6:00 e às 6:30 saímos de Lobuche. Chegamos em Gorak Shep às 9:00. Pegamos o primeiro lodge na entrada do vilarejo, Himalaya Lodge, o pior em que ficamos durante toda a trilha. Deixamos uma das mochilas, esvaziamos a outra  e, levando apenas alguns itens, às 9:45 iniciamos a subida ao Kala Patthar, montanha de 5.643m e que seria o ponto mais alto que iríamos atingir em todo o trekking. Às 11:45 chegamos no topo, fazia muito frio e ventava forte. Após algumas fotos e um pedaço de chocolate, às 12:00 começamos a descer, chegando na base às 13:30. Tomamos chá, comemos pipoca e jantamos pizza. Não dormimos quase nada por causa do frio, chegando a marcar -4,0°C durante a madrugada dentro do nosso quarto. Tempo total de caminhada: 6h15 (2h30 de Lobuche até Gorak Shep e 3h45 para subir e descer o Kala Patthar).

GorakShep

Gorak Shep, o Kala Patthar (sem neve) e o Pumori (7.161 m) ao fundo.

SubidaKalaPatthar

Na subida do Kala Patthar, com o Everest ao fundo.

Dia 09: Gorak Shep (5.164 m) -> Campo Base do Everest (5.364 m) -> Gorak Shep (5.164 m): Acordamos às 5:30, tomei café da manhã (Pri não conseguiu comer, náuseas e falta de apetite por causa da altitude) e compramos um pacote de bolacha pra comer na trilha. Saímos às 7:15 e chegamos no Campo Base às 9:15. Ficamos por lá até 10:45 e começamos a retornar. Na subida da saída do Campo Base, encontramos o Manoel Morgado guiando um trekking com 5 clientes brasileiros. Em um rápido bate-papo, ele nos indicou outro lodge para ficarmos, já que o nosso era horrível. Chegamos em Gorak Shep às 12:15 e trocamos para o lodge indicado, Everest INN. Tempo total de caminhada: 3h30.

Nuptse

A caminho do Campo Base com o sol nascendo atrás do Nuptse (7.861 m).

CampoBase

Campo Base e cascata de gelo do Khumbu.

Dia 10:  Gorak Shep (5.164 m) -> Dzongla (4.830 m): Saímos às 7:30 às 9:30 chegamos em Lobuche. Paramos no New EBC Guest House e tomamos um chá de limão (US$ 1,50). Saímos de Lobuche às 10:15 e às 13:00 chegamos em Dzongla. O primeiro lodge que tentamos vaga estava lotado e fomos para o Mountain Home Lodge. Tempo total de caminhada: 4h45.

CaminhoDzongla

A caminho de Dzongla.

Dia 11:  Dzongla (4.830 m) -> Cho La Pass (5.420 m) -> Dragnac (4.700 m): Saímos às 6:00 de Dzongla e às 7:00 terminamos de atravessar o vale e chegamos no início da subida de uma parede que leva ao passo Cho La. Às 9:00 chegamos no topo e iniciamos a travessia do glaciar. Às 10:00 terminamos a travessia e começamos a descer a outra parede, chegando ao fim dela às 11:30. Iniciamos a caminhada até Dragnac e chegamos no lodge às 13h. Nesse dia não há locais pelo caminho onde se possa parar pra tomar chá. Tanto a subida, a travessia e a descida do passo são bastante escorregadias e o uso de mini-crampons teria sido de grande ajuda. Não utilizamos e conseguimos atravessar sem grandes sustos, mas conhecendo o caminho, considero válido a utilização desse acessório. Eles podem ser comprados em Namche, não sei dizer o preço, mas são simples e não devem ser caros. São adaptáveis à qualquer tipo de bota. Não são crampons de escalada, servem apenas para evitar escorregões nas partes com gelo. Tempo total de caminhada: 7h00.

SubidaCholaPass

Subida ao Cho La Pass.

AltoChoLaPass

No alto do Cho La Pass.

CruzandoChoLaPass

Cruzando o glaciar para iniciar a descida.

Dragnac

Chegando em Dragnac.

Dia 12: Dragnac (4.700 m) -> Gokyo (4.750 m): Começamos a caminhar às 7:30 mas não conseguimos achar a trilha por causa da quantidade de neve que caiu durante a noite e apagou os rastros de pegadas. Por volta das 8:00 começamos a seguir um sherpa que guiava dois clientes. Às 8:30 chegamos na beira do glaciar, mas paramos por uns 30 minutos aguardando que o sherpa fosse na frente. Às 10:30 chegamos em Gokyo. Depois de 9 dias, finalmente consegui tomar um banho com balde e canequinha. Tive uma noite psicodélica. Tempo total de caminhada: 3h00.

Gokyo

Vila de Gokyo com o Gokyo Ri ao fundo e o lago coberto de neve.

Dia 13: Gokyo (4.750 m) -> Khumjung (3.790 m): Acordamos às 5:45 e subimos o morro que fica atrás do lodge para tirar algumas fotos. Depois descemos, tomamos café, arrumamos as mochilas e saímos às 8:30. Às 11:00 chegamos em Machermo, paramos para um lanche rápido e às 11:20 retomamos a caminhada. Às 13:10 chegamos em Dhole e paramos para almoçar. Saímos de Dhole às 14:00 e chegamos em Khumjung às 18:00. Dia longo! Fomos na padaria de  um cara estranho, ao lado do lodge Khumjung Greenland de um tiozinho que não falava inglês. Com gestos ele me explicou que a diária seria de US$ 2,00 pelo quarto duplo. Acabei deixando US$ 5,00 pela simpatia dele. Tempo total de caminhada: 8h30.

Gokyo3

Morro atrás da vila de Goky e o Glaciar Ngozumba

OlongoCaminhoDaVolta

O longo caminho da volta.

Dia 14:  Khumjung (3.790 m) -> Namche Bazaar (3.340 m): Saímos do lodge às 7:30 e paramos na padaria Hidden Village Lodge, na saída da vila. Às 8:00 saímos de Khumjung caminhando bem devagar e tirando muitas fotos. O caminho é muito bonito. Chegamos em Namche às 10:00. Fomos novamente na Sherpa Barista e à noite no The Irish Pub Namche, onde tomamos nossas merecidas Everest Beer (bem ruim) e duas Guinness de latinha. Tempo total de caminhada: 2h30.

Khumjung

Deixando para trás a vila de Khumjung rumo a Namche Bazaar.

IrishPub

Irish Pub em Namche  – cervejas mais que merecidas.

Dia 15:  Namche Bazaar (3.340 m) -> Lukla (2.860 m): Às 7:30 saímos de Namche e às 10:00 chegamos em Monjo. Não paramos e continuamos caminhando até 12:00 quando paramos para almoçar na Herman Bakery. Às 13:30 chegamos em Phakding e às 16:00 chegamos em Lukla com uma chuva leve começando. Ficamos no Himalaya Lodge, logo acima da pista do aeroporto.  O dono do lodge nos disse que teríamos que confirmar o voo para o dia seguinte e que isso normalmente é feito entre 15h e 16h, sendo que já era 18h naquele momento. Ele ligou na Yeti Airlines e conseguiu confirmar o voo para nós. Fiquei meio desconfiado dessa história, mas no final ele era super gente boa e só queria mesmo ajudar. Tempo total de caminhada: 7h30.

Namche2

Deixando Namche Bazaar rumo à Lukla.

Dia 16: Lukla (2.860 m) -> Kathmandu (1.400 m): Saímos do lodge às 5:30 e fomos para o aeroporto. Havia muita gente tentando embarcar e o tiozinho da lodge nos ajudou a fazer o check-in. Ele nos tirou de uma fila que não andava e fez uma moça do balcão nos atender. Realmente foi uma grande ajuda. O voo decolou às 6:50, 10 minutos antes do previsto. Sensacional!

Lukla4

Aeroporto Tenzing-Hillary, Lukla.

Dicas finais

Embaixada do Brasil em Kathmandu: Endereço: Chundevi Marg, H-155 Maharajgunj, Kathmandu 44600, Nepal Endereço Postal: P.O. Box 19299, Kathmandu, Nepal. Telefone: +977 (1) 4721-462/463. Recomenda-se informar a Embaixada do Brasil sobre seu itinerário, mas nós não tivemos tempo de fazer isso.

Fique esperto: às vezes, trekkers independentes são pressionados a não ir sozinhos. Embora a segurança seja citada como a principal preocupação, o dinheiro é muitas vezes a motivação. Taxistas, atendentes de hotel ou agentes nos balcões de emissão de permits podem tentar lhe vender um guia ou uma excursão de seus negócios familiares. No nosso caso, pelo menos dois taxistas tentaram nos convencer a contratar os guias indicados por eles.

Recarga de baterias: não haverá tomadas elétricas nos quartos. Você só pode carregar seus eletrônicos na recepção. Carregar seu telefone é caro e geralmente custa de US$ 2,50 a US$ 5,00 para uma carga completa de bateria. Nós levamos dois power-banks e mantendo os telefones quase o tempo todo em modo avião, conseguimos fazer toda a trilha sem necessidade de pagar para recarregar.

Rotina pela manhã: faça alongamentos quando você acordar ou antes de começar a caminhada. Use protetor solar nas partes expostas: rosto, lábios, mãos e orelhas. Não se esqueça nunca das orelhas. O sol é muito forte em altitudes elevadas e pode queimar sua pele com muita facilidade.

Rotina da tarde: lave o rosto e as mãos quando chegar ao alojamento por volta das 13h ou 14h. O dia ainda estará um pouco quente quando você chegar. Assim, será mais fácil lavar o rosto e as mãos com água fria naquele momento. Se estiver muito frio, use apenas lenços umedecidos para se limpar. Troque de roupa, tire suas botas e meias e use meias de lã e chinelos. Isso permitirá sua roupa de caminhada fique seca e seus pés respirem e estejam prontos para a caminhada no dia seguinte.

Rotina noturna: coma por volta das 18h30 ou 19h e vá para a cama às 19h30 ou 20h. Dessa forma você pode acordar às 6 da manhã e ainda ter cerca de 10 horas de sono. Você precisaria de 9 a 10 horas de sono para se recuperar bem e estar pronto para a caminhada. Use um cobertor em cima de seu saco de dormir para torná-lo mais quente. Não hesite em pedir cobertores extras se precisar. Não beba muita água antes de ir para a cama. Sair do saco de dormir para ir ao banheiro pode ser extremamente difícil nessas noites frias. Desligue o telefone (para conservar a bateria) e mantenha-o dentro do saco de dormir. A bateria do telefone é drenada rapidamente no frio, mesmo que esteja desligada. O calor dentro do saco de dormir impedirá a drenagem da bateria. Mantenha sua garrafa de água dentro do saco de dormir também. Se for água quente, vai aquecê-lo dentro do saco de dormir. Se for água fria, vai aquecer lentamente devido ao calor do corpo. Se a água for deixada do lado de fora, ela pode ficar congelada pela manhã.

Mapas: compre uma mapa da trilha ainda em Kathmandu. A trilha é muito bem demarcada e é praticamente impossível se perder. Se ficar em dúvida em algum trecho com bifurcação, basta aguardar alguns minutos que logo surgirá alguém pra você perguntar qual caminho seguir. Em alguns trechos de rocha, onde não existe trilha visível, siga os traços de esterco deixado pelos iaques.

Sempre: sempre dê passagem às mulas, cavalos, iaques e carregadores na trilha. Mulas, cavalos e iaques não cedem o lugar a você e eles vão te derrubar. Basta se afastar quando você vê-los. Os carregadores carregam cargas pesadas na cabeça e nas costas. É difícil para eles verem o que está na frente. Sempre dê lugar a carregadores com cargas pesadas. Fique de pé no lado de cima e não no lado da borda quando estiver dando lugar à mulas, cavalos e iaques. Tome um bom café da manhã, coma um bom almoço e um bom jantar. Dessa forma, você não precisará de nenhum lanche e não se sentirá fatigado na caminhada. Coma Dal Bhat para o almoço. Te dará uma boa quantidade de carboidratos e proteínas. Você também poderá reabastecer sua água  nos lodges onde almoçar. Beba pelo menos 3 litros de água todos os dias. Seu corpo desidrata rapidamente na caminhada. Amacie seus sapatos de trekking antes de usá-los na caminhada. Mantenha sempre a stupa à sua direita quando passar por uma. Costuma-se ir no sentido horário em torno das stupas. Mantenha um ritmo lento e constante e mantenha-se hidratado. Traga seu Kindle, um jogo de cartas ou um livro. Pode ficar extremamente chato durante as tardes nos lodges. Traga uma bateria externa, pois o carregamento do seu smartphone pode ser muito caro. Reserve o primeiro voo para Lukla saindo de Kathmandu. O clima em Lukla não é bom a maior parte do tempo e os voos costumam atrasar. Se você está no primeiro voo, ainda terá a chance de voar no mesmo dia em caso de atrasos.

Nunca: nunca jogue lixo na trilha. Existem áreas designadas para jogar lixo ou simplesmente guarde-o na mochila e jogue no lixo quando chegar no lodge. Não carregue mais nada além do que for estritamente necessário. Ao caminhar por tantos quilômetros, por tantas horas por dia, até um quilo extra de peso pode parecer pesado demais. Não precisa trazer nenhum lanche extra além de uma barra de chocolate. Você não precisará de muitos lanches se tomar um bom café da manhã, um bom almoço e um bom jantar. Não coma carne na caminhada. A carne é carregada pelos porters e geralmente não é fresca. Atum você para consumir. Não beba álcool. Álcool e altitude não vão bem. Você pode tomar uma cerveja ou duas para comemorar quando voltar para Namche ou Lukla. Não compre garrafas de água. Garrafas de água são caras. Basta encher sua garrafa no lodge ou restaurante com água fria e usar filtros ou comprimidos de purificação de água. Água fria nos lodges e restaurantes é gratuita. Não use muito o seu telefone. Mantenha-o no modo avião e aquecido junto ao seu corpo. Dessa forma, você pode economizar sua bateria e não pagar pelo carregamento. Não traga equipamentos de camping, como barracas, etc. (exceto saco de dormir). Você vai ficar em alojamentos. Não tome banho. Chuveiros quentes são caros e custam entre US$ 4,00 e US$ 5,00. Traga um sabonete pequeno e lave o rosto e as mãos quando chegar ao alojamento por volta das 2h da tarde, quando o tempo estiver um pouco quente. Caso contrário, use lenços umedecidos para se limpar.

Coisas para ter em mente: Você pode tomar metade de um Diamox pela manhã e metade à noite se começar a perceber problemas relacionados à altitude. Eu só tomei metade em uma noite para tentar dormir melhor, mas não achei que tenha ajudado. Fora isso, fui capaz de lidar com as dores de cabeça apenas com muita água, chá, café e sopa de alho. Sopa de alho é recomendada para doença de altitude. Experimente e veja se isso ajuda. Você não tem que ser super atlético ou um caminhante experiente. Pessoas de todas as idades e todos os níveis de condicionamento físico percorrem a trilha com sucesso.

No geral: o trekking ao Campo Base do Everest é a caminhada mais popular no Nepal. A jornada, as paisagens, a magnitude das montanhas e o sentimento de realização no final da caminhada são incríveis. Esperamos que este Guia ajude você a planejar e embarcar na sua aventura pelas montanhas do Himalaia.

Referências

http://www.everestbasecamptrek.org

https://wanderingon.com

http://altamontanha.com/remedios-e-tudo-sobre-altitude

https://www.hospitalsiriolibanes.org.br/sua-saude/Paginas/edema-pulmonar-pode-ser-fatal-deve-ser-tratado-urgencia-.aspx

O que levar

A seguir, a lista de itens utilizados durante o trekking. Os nomes das marcas e modelos quando informados são apenas exemplos. Itens semelhantes, de pior ou melhor qualidade, também pode ser utilizados. O que irá mudar, provavelmente será o conforto e a durabilidade.

– 1 bota de trekking Salomon X-Ultra Mid
– 1 chileno Havaianas (um Crocs teria sido melhor)
– 2 pares de meia de trekking Quechua
– 1 par de meia de lã merino da marca Lorpen
– 1 par de meia de lâ merino Lorpen do tipo liner
– 1 calça para trilha Quechua
– 1 calça impermeável Conquista
– 1 calça segunda-pele Curtlo ThermoPlus
– 2 cuecas sintéticas sem algodão
– 1 blusa segunda-pele comum
– 1 blusa segunda-pele Curtlo ThermoPlus
– 1 camiseta dry-fit de manga longa
– 1 camiseta dry-fit de manga curta
– 1 camiseta de algodão para dormir
– 1 blusa de fleece Quechua
– 1 anorak Simond
– 1 blusa de penas North “Fake”
– 1 par de luvas para neve
– 1 par de luvas de lã
– 1 protetor de orelhas (ou um gorro se preferir)
– 1 buff
– 2 pares de óculos (um normal e outro categoria 4)

 

Escalando o Pequeño Alpamayo

O Alpamayo é uma montanha de 5947m de altitude, localizada na Cordillera Blanca, no Peru, e que ficou famosa por já ter sido considerada a mais bonita do mundo por uma revista alemã especializada em alpinismo. Pela semelhança com sua vizinha peruana, uma montanha boliviana localizada na Cordillera Real ficou conhecida como o Pequeño Alpamayo, e apesar de realmente ser um pouco menor, com 5370m, não perde quase em nada quando o quesito é a beleza de suas faces escarpadas e suas cristas afiadas, completamente nevadas. Com o objetivo final de tentar escalar o Illimani, a segunda maior montanha da Bolívia com 6438m, retornei à La Paz no inverno de 2017, procurando seguir os mesmos procedimentos de aclimatação adotados na subida ao Huayna Potosí em 2016. A ascensão ao topo do Pequeño Alpamayo seria uma preparação para encarar o gigante Illimani, podendo ser concluída em dois dias, saindo de La Paz pela manhã e pernoitando no acampamento base do maciço do Condoriri – um conjunto de montanhas que inclui também o Pico Áustria, a Pirâmide Blanca, o Ilusión e o próprio Condoriri, também conhecido como Cabeza del Condor.

Nevado Tarija e o Pequeño Alpamayo

Como ainda sou apenas um iniciante nesse mundo de alta montanha, foi preciso contratar um guia através de uma agência para encarar a escalada com um mínimo de segurança. No dia 31 de julho de 2017, pouco antes das 9h00 da manhã, cheguei ao antigo endereço da agência Hiking Bolivia na calle Sagarnaga, onde hoje funciona apenas um pequeno depósito de equipamentos, para me encontrar com o guia Rodolfo Layme, e pegar os últimos equipos que ainda me faltavam: um piolet de travessia, um par de polainas, capacete e cadeirinha. Saímos de La Paz por volta das 10h00 rumo à Rinconada – um pequeno rancho no final de uma longa estrada empoeirada e que é o ponto mais próximo das montanhas que o velho táxi dirigido por Rodolfo conseguiria alcançar. A viagem que normalmente levaria cerca de 2h, naquele dia por causa de protestos pela escassez de água na cidade de El Alto e bloqueios na estrada em diversos pontos, acabou demorando quase 5h e se tornando um verdadeiro martírio devido ao intenso calor dentro do carro, com todos os vidros fechados e sem ar-condicionado. Já aprendi que se existe algo que tem sempre 100% de chances de acontecer na Bolívia, é você enfrentar um protesto quando precisa se deslocar pelas estradas do país. O que ajudou a aliviar um pouco o sofrimento e passar o tempo foi o bate-papo com um casal brasileiro que contratou apenas o transporte até o acampamento base e que também estavam no carro-microondas: Laura e Pedro, escaladores do Rio de Janeiro com muita história pra contar. Os dois acabavam de passar uma semana completamente isolados em um local próximo ao Salar de Uyuni conhecido como Itália Perdida, uma formação rochosa no meio do nada. Eles me contaram como foi a aventura para conseguirem chegar até lá e a satisfação de conquistarem as primeiras vias da região (pra quem se interessar, eles montaram um guia completo das vias do local disponível aqui). Pedro já havia escalado diversas montanhas na Bolívia e me deu uma boa noção do que poderia esperar para o dia seguinte.

Rancho em Rinconada

Chegando em Rinconada, já por volta das 14h00, Rodolfo e eu almoçamos a comida previamente comprada em El Alto e ele se encarregou de contratar uma mula para levar os equipamentos até o acampamento base, à cerca de 2h dali. Essa caminhada de aproximação é bem tranquila e a vista das montanhas ao redor impressiona bastante. Chegando nos primeiros refúgios, próximos à laguna Chiarkota, uma má notícia: todos os locais estavam lotados de trekkers e não havia lugar para Rodolfo e eu dormimos naquela noite. Rodolfo comentou que talvez tivéssemos que bivakar (o que significa dormir praticamente ao relento), caso não encontrássemos vagas em um outro local, um pouco mais acima da laguna. Nesse outro refúgio, após conversar com o proprietário, felizmente conseguimos dois lugares para dormir, sendo que uma das vagas era na cozinha. Fui me deitar por volta das 20h00 e o plano era acordar à 01h00 para tomar um rápido café da manhã e começar a caminhada até a base do glaciar do Nevado Tarija, uma montanha vizinha de aproximadamente 5300m e que necessariamente precisa ser escalada primeiro, antes de se tentar chegar ao cume do Pequeño Alpamayo, de forma que seriam duas escaladas em uma.

Cardápio do almoço – arroz, frango e banana

Laura e Pedro à caminho do acampamento base do Condoriri

Rodolfo na caminhada de aproximação

Laguna Chiarkota com o Nevado Tarija ao fundo

Refúgio na base das montanhas

Suíte presidencial no refúgio

Por volta das 2h da madrugada do dia 01 de agosto, saímos do refúgio e iniciamos nossa caminhada pelo terreno rochoso que conduz até o início do glaciar. O tempo estava muito bom, sem nenhuma nuvem e com o céu bastante estrelado. A temperatura por volta dos -5ºC, não chegava a trazer uma sensação muito grande de frio, graças à ausência total do vento. Cerca de 1h depois, chegamos à base do glaciar e paramos para nos equiparmos com os crampons e nos encordarmos. Agora a subida ficava muito mais íngreme e o trajeto seguia um zigue-zague pela esquerda da rampa de gelo para depois seguir pela direita em linha diagonal quase direta rumo ao cume do Tarija. Às 06h30 da manhã alcançamos o topo, minutos antes do sol nascer.

Colocando os crampons para começar a subida do glaciar

Primeira visão completa do Pequeño Alpamayo do cume do Tarija

Rodolfo se preparando para desescalar as rochas do Tarija

Do cume do Tarija, é preciso desescalar um trecho de rochas de uns 70 metros, atravessar um colo entre as duas montanhas com algumas gretas fáceis de identificar e voltar a subir, agora pela rampa do Pequeño Alpamayo – uma pendente com forte inclinação desde o começo e que chega próximo aos 55º em alguns trechos. Rodolfo seguia na frente ditando o ritmo (-Más despacio, Rodolfo!) e eu tentava acompanhar alguns metros atrás. Esse tipo de progressão é conhecido por alguns como “à francesa” (há controvérsias!), quando o guia e o segundo sobem simultaneamente, sem proteções fixas entre os dois e sem reuniões. Um ótimo beta pra este tipo de escalada é: não caia! Principalmente se estiver guiando, já que o tranco pro segundo vai ser ainda mais difícil de segurar a queda. Felizmente o gelo da parede estava em boas condições e fincando as pontas dos crampons com um pouco de força, tinha-se uma boa sensação de segurança. O piolet de travessia, apesar de grande e desajeitado, também auxiliava na hora de buscar algum apoio para as mãos. Em 45 minutos desde o colo, chegamos no topo do Pequeño Alpamayo.

Nem tão “pequeño” assim

No cume do Pequeño Alpamayo

Bastante cansado por causa do esforço e da altitude, me sentei para descansar na pequena área do cume e contemplar a vista da Cordillera Real. À minha direita, o Huayna Potosí parecia ao alcance das mãos. Rodolfo saca algumas fotos minhas no estilo “Tenzing Norgay” no topo do Everest empunhando o piolet e em seguida abre a mochila e tira uma pequena garrafa de algo que ele chama de tequila lá de dentro. Sussurra algumas palavras como uma prece de agradecimento e derrama alguns goles na neve antes de beber. Para Pachamama, ele me explica. Salud! Também tomo um pouco da bebida e em seguida, começamos a nos preparar para o caminho de volta.

Selfie com meu amigo Huayna Potosí

Tequila para Pachamama

Primeiro era preciso desescalar, agora a rampa de gelo do Pequeño Alpamayo, atravessar o colo estreito entre as duas montanhas e retornar pelo trecho de pedras do Tarija. Cruzamos pela primeira vez desde que saímos do refúgio com outros escaladores, seguindo em grupo, logo depois de descerem pela escarpa rochosa. Hola, buenos días! Cumprimento e fico feliz de já estar no caminho contrário, descendo para uma altitude mais baixa em busca de um pouco mais de oxigênio.

Grupo no final da descida do Tarija, rumo ao Pequeño Alpamayo

A desgastante subida de volta ao cume do Tarija e mais gente chegando

Outro grupo no topo do Tarija e nós já começando a descida ao acampamento base

Me sentia bastante cansado e escalar de volta ao cume do Tarija foi um esforço muito grande. Novamente no topo, agora o caminho era só descida. Em 2h percorremos o trajeto que na ida havia levado 4h30 e às 11h00 da manhã já estávamos de volta ao refúgio. Me sentia completamente esgotado e meus músculos pareciam sofrer pequenos choques quando eu tentava esticar os braços ou as pernas. As solas dos pés estavam muito doloridas por causa da bota rígida e foi inesquecível o alívio que senti ao voltar a caminhar sem elas.

Rodolfo na descida do Tarija

Fim do glaciar – pausa para descansar e tirar os crampons

Um ano antes havia escalado o Huayna Potosí, cujo cume passa dos 6 mil metros e não me lembrava de ter sofrido tanto assim. E afinal, com o Pequeño Alpamayo sendo 700 metros mais baixo, fazia todo sentido que fosse um pouco mais fácil e menos desgastante. Mas não foi. E se fizeram valer três regras do montanhismo que nunca falham: é sempre mais longe do que parece, é sempre mais alto do que parece e é sempre mais difícil do que parece. Lembrei-me do Pedro dizendo que um dos pré-requisitos para quem quer subir montanhas é ter uma memória curta. Noites mal dormidas, madrugadas geladas, falta de apetite, calor de derreter quando se está caminhando, a mão que congela quando é preciso parar e retirar as luvas por poucos instantes, a bota que tritura cada ossinho dos pés, o esforço físico extenuante e principalmente a danada da altitude e sua miserável concentração de oxigênio. Você ainda se lembra do gigante Illimani do começo da história? Ficou pra quando todo o sofrimento já não estivesse mais na memória! Naquele momento, a hora era de voltar pra casa.

“A vida é reduzida ao básico: se você está aquecido, confortável, saudável, sem sede ou sem fome, então você não está em uma montanha. Escalar em altitude é como bater sua cabeça contra uma parede de tijolos – é ótimo quando você pára “. – Chris Darwin

No topo da Islândia

Assim que combinei com mais dois amigos que faríamos uma viagem pela Islândia, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi procurar uma montanha para subir. “Iceland highest peak” no Google e lá veio o palavrão: “Hvannadalshnúkur” (pronuncia-se “kwana-talsh-nukyr”), um pico piramidal na borda noroeste da cratera do vulcão Öræfajökull e que é o ponto mais alto da Islândia.” – segundo o Wikipedia. Na mesma pesquisa já veio também como chegar até lá: Icelandic Mountain Guides – a melhor agência de guias de montanha da Islândia, e acho que também a única que existe na ilha.

Hvannadalshnúkur ao fundo, visto do glaciar Vatnajökull

O topo do “Hvannadalsh” está a 2110m de altitude, o que não chega a ser grande coisa. A Pedra da Mina por exemplo, ponto mais alto do Estado de São Paulo, possui 2798m. O grande problema na montanha islandesa é que sua base está quase ao nível do mar e por isso são mais de 2km de elevação em uma trilha de 22km – ida e volta – percorridos entre 10 e 15h em média.

Nosso guias, Martin e Bia, passando instruções sobre os crampons

Na véspera da subida ocorre uma reunião com os guias e demais participantes do “passeio”, na sede da agência, próxima ao centro de visitantes do Parque Nacional Skaftafell. Nessa reunião, todos se apresentam e os guias nos perguntam se já temos algum tipo de experiência prévia em travessia de glaciares, uso de crampons e piolet e se estamos acostumados com caminhadas por longas distâncias e com grande esforço físico. Também nos alertam que os primeiros 600m de subida servirão como um teste de aptidão e que os que não se sentirem bem para continuar, deverão retornar neste ponto. Se você passar deste local e depois desistir de continuar, irá prejudicar todos que estiverem na mesma cordada que você, já que o guia terá que retornar junto e todos os demais também. Por isso, eles enfatizam que todos sejam bem conscientes no momento de tomar a decisão de continuar ou retornar. Ao todo, éramos em doze pessoas, sendo 10 clientes – duas islandesas, quatro norte-americanos, três canadenses e eu, pontepretano – e 2 guias – Martin, alemão de Stuttgart, e sua esposa Bia, brasileira de São Paulo. Quem diria! Encontrar uma guia de montanhas brasileira tão longe de casa! Pedi à Bia que se possível eu ficasse na mesma cordada que ela, já que meu inglês não é lá essa fluência toda.

Hotel da véspera

Reunião encerrada, fui organizar os equipamentos e tentar descansar um pouco. O plano era dormir no carro e acordar às 2h da manhã para trocar de roupa, comer alguma coisa e encontrar os guias e os demais às 3h. Péssimo plano, já que foi quase impossível pegar no sono devido ao frio e à ansiedade. Se eu fechar as janelas do carro, será que não vou sufocar aqui dentro? Será que a bota alugada não vai me machucar? Por que não trouxe a minha própria bota? Será que teremos muito vento? Minhas roupas vão dar conta se tiver muita neve? Fui o primeiro a chegar no ponto de encontro, e logo depois, chegaram Bia e Martin com a van que nos levaria até a base da montanha, à uns 15 minutos dali.

Primeiro trecho de subida

Os tais primeiros 600m de elevação realmente te fazem repensar se deve continuar ou não, e um casal de norte-americanos achou melhor desistir e retornar a partir dali. Para alguns uma decisão dessas pode ser vista como um fracasso, mas sem dúvida, reconhecer as próprias limitações e evitar prejudicar o resto do grupo com uma desistência posterior foi uma grande demonstração de humildade.

Parada para colocar os crampons

Por volta dos 1000m de elevação, o trecho de rochas expostas fica para trás e surge um enorme campo de gelo que parece infinito. Trata-se de uma borda do glaciar Vatnajökull, a segunda maior calota de gelo da Europa e que cobre 8% do território da Islândia. A espessura de sua camada de gelo pode atingir até 1km. Nesse momento, fizemos uma parada para colocar os crampons e nos encordarmos. Nota do autor: fui o primeiro a terminar de colocar os crampons e ganhei até um elogio do guia alemão: “Super! Not bad for a brazilian!”. Não sei se disse isso pra me incentivar ou para tirar onda com a esposa brasileira!

O Sol indica onde fica o céu

Por diversas vezes durante a subida precisamos interromper o passo para colocar ou retirar camadas de roupas para tentar regular a temperatura. O tempo estava bem frio e bem fechado, com pequenos chuviscos de neve e um pouco de vento. Porém, quando o Sol mostrava um pouco sua força e estávamos nos movimentando, o calor era muito grande e nessas condições a tendência é que as roupas fiquem rapidamente molhadas de suor. Quando isso acontece é terrível, pois minutos depois, o frio volta ainda mais forte.

No topo da Islândia

Depois de 7h de caminhada chegamos ao topo. A visibilidade estava bem limitada por causa de um “whiteout” que nos acompanhou quase o tempo todo. Ficamos por volta de uns 40 minutos no cume descansando, comendo lanches e tirando fotos. Metade do caminho percorrido, era hora de começar a descida. O cansaço já era grande e a neve, por causa do horário e do tempo mais quente, ficou muito fofa no caminho de volta. Por vezes, a cada passo dado a perna afundava na neve até os joelhos.

Pesadelo branco

Depois de umas 3h cruzando o glaciar, quando eu já tinha certeza que estava preso em um pesadelo branco sem fim, chegamos novamente na parte de rochas e pudemos retirar os crampons das botas. Logo depois, uma das canadenses do meu grupo, torceu o joelho ao escorregar em uma pedra e tivemos que parar por uns 10 minutos até que ela se sentisse em condições de continuar. Com ela seguindo na frente do grupo, lentamente seguimos descendo, já sem a necessidade da utilização de cordas ou capacetes.

Descendo sobre rochas

No final, depois de 5h de descida, veio o alívio de enxergar novamente a estrada que nos levaria de volta até o Parque Skaftafell. Só nesse momento que me dei conta de que havia ingerido todos os 3 litros de água que levei e nem sequer uma única vez parei para fazer xixi, tamanho o esforço físico que foi necessário. Chegando ao Parque, me despedi do resto do grupo e corri pra comprar uma ficha que me daria direito à um merecido banho com água quentinha nos chuveiros do camping, roupas secas e um calçado confortável logo depois. O corpo destruído de cansaço mas com um sentimento de grande satisfação por ter conseguido ir até o fim. Não se trata de uma montanha técnica, que exija grandes conhecimentos de escalada. O básico você aprende na hora mesmo, como por exemplo, manter a corda sempre do lado mais exposto da enconsta e retirar a neve acumulada nos crampons sem precisar parar o tempo todo. Além disso, depois de um tempo você pega o jeito do tal “keep the rope smiling” de forma que o trecho de corda entre você e quem vai à frente forme um arco, sem que fique esticada demais ou frouxa demais caída no chão.

Até a próxima e boas escaladas!

Olhando essa foto percebi a quantidade de sais eliminados e acumulados no rosto por causa da transpiração

Santiago do Chile

Dicas para uma primeira viagem a Santiago do Chile

Advertência: as dicas contidas neste post não tem a presunção de esgotarem pesquisas mais detalhadas sobre o assunto e nem tão pouco serem válidas para todos os gostos e tipos de viajantes. Elas apenas refletem as experiências e impressões pessoais do autor.

Chegando em Santiago

A maneira mais comum é chegar de avião pelo Aeroporto Internacional Arturo Merino Benítez (código SCL) que fica aproximadamente a 19 km do bairro Providencia. Esse bairro é cheio de bares, restaurantes, estações de metrô e permite que você possa visitar a pé algumas das atrações da cidade. Para chegar lá saindo do aeroporto, você pode utilizar os serviços da Transvip (www.transvip.cl) que oferecesse táxis comuns ou táxis compartidos, que saem bem mais em conta. Eles possuem uma tabela com preço fixo dependendo do bairro de destino. Assim, não há que se preocupar com a possibilidade de ser enganado pelo taxista assim que chegar na cidade. Infelizmente essa é uma realidade em muitas cidades sulamericanas. A Transvip possui um balcão logo na saída da área de desembarque e os vendedores costumam abordar os passageiros oferecendo o transporte. Dica: tanto faz aceitar a oferta ou ir até o balcão da empresa, o preço cobrado será o mesmo.

Bairro Providencia e a sempre constante Cordillera no horizonte

Onde ficar

Como já mencionado, o bairro Providencia é uma das melhores opções para se hospedar. Minha sugestão, para economizar um dinheiro razoável, é evitar os hotéis que costumam ser bem caros em Santiago e ficar em um apartamento particular. Você pode pesquisar tanto no www.booking.com como no www.airbnb.com. Em ambos deverão aparecer apartamentos do edifício da calle Dardignac nº 28, próximo ao Patio Bellavista – um pequeno complexo com lojinhas de artesanato, souvenirs, bares, restaurantes e também, com absoluta certeza, a maior concentração de brasileiros por metro quadrado de todo território chileno. Clique aqui para ver o apartamento em que ficamos na última vez, em 2014. Alugamos este apartamento pelo AirBnb, a chave estava na portaria quando chegamos e na saída voltamos a deixar a chave lá. Ficando em um apartamento, você pode comprar comida em algum supermercado próximo, preparar um macarrão, pedir uma pizza, fazer o café da manhã e economizar mais um pouco de dinheiro. Há muitos restaurantes próximos, porém, sair pra comer fora todos os dias, dependendo de quantos dias você pretende ficar na cidade, certamente irá custar uma boa parte do seu orçamento. Santiago está longe de ser uma cidade barata. Dica: nos supermercados você pode encontrar, além de comida, garrafas de vinho de 2 litros mais baratas que refrigerante.

Ex-pizza e vinho

 Onde beber

Ali mesmo próximo ao Patio Bellavista,  existem diversos bares onde você pode tomar uma nem sempre gelada Cerveza Escudo litrão baratinha, baratinha, ficar borracho e sair colocando em prática seu portunhol tentando compreender o complicado sotaque chileno. Lembrando que em Santiago, e provavelmente no Chile todo, é proibido sair bebendo em vias públicas. Se for pego poderá ser multado pelos sempre presentes Carabineros de Chile. Dica: coloque vinho em um garrafinha de plástica de água e seja feliz.

Infração penal em curso

Porém, se quiser conhecer um bar muito mais legal, o Liguria é uma grande opção. Diria até que imperdível. Fica a mais ou menos 4 km do Patio Bellavista, na Av. Providencia 1373.

Bar Liguria, Av. Providencia 1373, Providencia, metrô Manuel Montt

Dica: vá de táxi ou metrô e volte a pé, embriagado, tirando fotos sem foco e se divertindo com os cachorros de rua no frio congelante.

Por las calles con los perros

Como chegar aos centros de ski

No mesmo no bairro Providencia, tome o metrô linha 1 (vermelha) na estação Baquedano sentido Los Dominicos e desça na estação Escuela Militar. Saindo do metrô, caminhe 550 metros subindo pela avenida Apoquindo até o número 4900 (veja o mapa aqui). Nesse endereço fica a Ski Total (www.skitotal.cl). Essa agência fornece tudo que você irá precisar para conhecer os centros de ski próximos à Santiago. Ali é possível alugar todos os equipamentos, roupas pra neve, contratar transporte, comprar os tickets para os centros de ski e reservar uma aula de ski ou snowboarding, em grupo ou individual. Se você não faz o tipo esportista e pretende apenas conhecer a neve, bastaria contratar o transporte e eventualmente alugar alguma roupa impermeável pra neve caso você não disponha. O ticket para os centros de ski na verdade é um ticket para que você possa usar os teleféricos que te levam montanha acima pra depois descer esquiando. No site da Ski Total você pode consultar previamente todos os valores cobrados pelo aluguel de roupas e equipamentos, além do transporte e os ingresso para as estações de ski. Dica: vá na véspera na agência na parte da tarde e já faça as reservas das roupas e efetue o pagamento. No dia do passeio, chegue o mais cedo possível na loja, de preferência pouco antes dela abrir. Isso te fará economizar um bom tempo em filas para experimentar as roupas e retirar os equipamentos alugados. É uma grande confusão de gente se apertando pra provar roupas e escolher equipamentos. À medida que as pessoas vão ficando prontas, os lugares nas vans de transporte vão sendo preenchidos e os motoristas partem rumo às montanhas. Assim, quanto antes você estiver pronto, maior a chance de pegar um lugar nas primeiras vans que saírem. Se for possível, prefira visitar os centros em dia úteis. Em geral as pistas estarão mais vazias (cheios de turistas brasileiros mas com poucos chilenos) e você pode conseguir alguma promoção no preço dos tickets. Da última vez que estive lá, em uma sexta-feira, na compra de um ticket você ganhava outro de graça. Dica: compre e leve de Santiago toda comida e bebida que for consumir durante o dia no centro de ski, já que uma simples lata de coca-cola pode sair fácil, fácil, por uns 30 reais – sem canudinho.

Motorista colocando correntes nos pneus devido ao gelo na estrada de subida ao Valle Nevado

Valle Nevado, La Parva, El Colorado e Portillo

São esses os centros de ski mais próximos à Santiago. La Parva e Portillo eu não conheço. Em El Colorado os tickets são um pouco mais baratos do que no Valle Nevado e a estação de ski também é mais próxima de Santiago, o que te faz economizar uns 40 minutos de viagem. Porém a estrutura de teleféricos em El Colorado é bem menor. Se você já manja dos paranauê de ski ou snowboarding, essa pode ser uma boa opção. No meu caso, o grande problema é o teleférico usado pra subir a montanha. Nele você precisa ficar o tempo todo com os skis ou a prancha de snowboarding presa ao pé e na hora de descer você simplesmente desliza suavemente ou se espatifa no chão cada vez que precisa utilizá-los. Dica: vá para o Valle Nevado.

Subindo a montanha em El Colorado: pronto pra cair de novo?

Valle Nevado

No Valle Nevado o principal teleférico não é uma cadeirinha como em El Colorado. É uma gôndula parecida com aquelas de rodas-gigantes. Os skis e as pranchas vão do lado de fora. Pra descer é muito simples e sem complicações de natureza gravitacional.

Valle Nevado – Pri e Rafa (aluna principiante e instrutor de ski formado no YouTube)

Ski ou Snowboard?

Ski eu considero mais fácil de se divertir logo na primeira tentativa.  É mais fácil ficar de pé nas partes planas e você consegue usar os bastões para ajudar no equilíbrio. Porém, nas partes mais inclinadas, você começa a pegar velocidade rapidamente e conseguir parar sem cair pode não ser tão simples. Já com o snowboard, é muito difícil ficar de pé nas partes mais planas, e por incrível que pareça, é fácil descer devagarzinho quando a inclinação é maior. De qualquer forma, nos dois casos, uma aula inicial é bastante indicada.

Vinícolas – Concha y Toro

Sobre isso eu não tenho dica alguma, mas sei quem tem! Usamos as informações desse post aqui (www.matraqueando.com.br/chile-como-ir-por-conta-a-vinicola-concha-y-toro) e optamos por ir por conta própria utilizando metrô e depois um táxi. No final do post tem os detalhes de como chegar até lá.

Acho que é isso, boa viagem! E volte ao Chile quantas vezes puder!

Huayna Potosí

“Os dias que estes homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem. Quando a mente se limpa das teias de aranha e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos recobram a vitalidade e o homem completo se torna mais sensível, e então já pode ouvir as vozes da natureza, e ver as belezas que só estão ao alcance dos mais ousados.” – Reinhold Messner.

O autor dessa frase é considerado por muitos o maior alpinista de todos os tempos, tendo sido o primeiro escalador a atingir o cume de todas as 14 montanhas acima de 8 mil metros sem oxigênio complementar, alguma delas em solitário. Muito, mas muito longe disso, meu objetivo era bem mais humilde: tentar chegar ao cume do Huayna Potosí, montanha de 6088m de altitude, à cerca de 2h de La Paz, Bolívia. Mesmo modesto diante de tantas outras montanhas mais técnicas e muito mais difíceis, os efeitos da altitude em um 6 mil não poderiam jamais serem deixados de lado.  Depois de muita pesquisa sobre o assunto, quando se fala em escalada de alta montanha, ficou claro que o segredo para sair bem sucedido se apoiaria no tripé – hidratação, descanso e aclimatação.

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Altiplano boliviano com o Huayna Potosí ao fundo

O altiplano boliviano, onde fica a base da montanha e também o principal aeroporto para se chegar a La Paz, está situado à aproximadamente 4 mil metros. Quando você desce do avião em El Alto, uma das cidades com maior altitude do mundo, o efeito da baixa pressão atmosférica no seu corpo é instantâneo: dores de cabeça, cansaço, sonolência, taquicardia e respiração acelerada. Aliada à tudo isso, a pouca umidade relativa do ar ajuda a tornar cada inspiração um pequeno sacrifício. Em um ambiente como estes com ar rarefeito, ao detectar a baixa presença de oxigênio na atmosfera, o corpo começa a produzir mais glóbulos vermelhos. O aumento na presença destes, junto com a desidratação devida ao ar extremamente seco, faz com que o sangue fique mais espesso, o que pode trazer problemas à tecidos pulmonares e cerebrais.

A oxi-hemoglobina presente nas hemácias é capaz de carregar 98-99% de todo oxigênio presente no sangue e pode ser visualizada através da saturação de oxigênio, medida pelo oxímetro de pulso. Em outras palavras, esse aparelho verifica indiretamente a quantidade de oxigênio no sangue e permite ter uma noção do quanto seu corpo está sofrendo com essas condições adversas, servindo também para monitorar a evolução no processo de aclimatação. Leituras normais para indivíduos saudáveis ficam entre 97% e 100% quando medidas ao nível do mar. No dia seguinte após chegar em La Paz, eu apresentava uma taxa de apenas 89%. Se não fosse devido à altitude, seria um caso passível de internação, UTI e intubação traqueal!

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Oxímetro utilizado para medir a saturação de O2 no sangue

A estratégia seria descansar bastante, caminhar lentamente pelas ruas de La Paz e tomar pelo menos 4 litros de líquidos diariamente, principalmente nos dois primeiros dias após a chegada. Felizmente existem diversos “baños publicos” pelas ruas da cidade que cobram apenas 1 boliviano para serem utilizados. Bebendo tanto líquido, não conseguia ficar mais do que 30 minutos sem fazer xixi. Acho que conheci todos os baños da capital pacenã!

Las calles de La Paz

Las calles de La Paz

Além disso, era preciso um plano para tornar a aclimatação mais efetiva. Para isso, um processo já consagrado consiste em subir alto e dormir baixo, ou seja, atingir altitudes mais altas durante o dia e descer para dormir em um local com altitude menor. Assim, como preparação para o Huayna Potosí, me programei para subir duas outras montanhas, o Chacaltaya, com 5421m e o Nevado Charquini, com 5390m. Nos dois casos, retornaria à La Paz no final do dia para dormir nos seus “confortáveis” e bem oxigenados 3600m. Também resolvi que seria melhor incluir pelo menos um dia de descanso entre uma ascensão e outra.

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Turistas à caminho do cume do Chacaltaya

O Chacaltaya é uma antiga estação de esqui, a mais alta do mundo durante seu funcionamento, mas que hoje está desativada devido à baixa quantidade de neve no local, situação considerada por muitos como uma evidência do aquecimento do planeta. A montanha fica bem próxima ao Huayna Potosí e o acesso é feito por uma estrada estreita e bastante íngreme, mas que permite que se chegue até bem próximo ao cume, sendo preciso continuar caminhando por cerca de apenas mais 200m para se atingir o topo. Sem dúvidas é um dos pontos mais altos que se consegue atingir sem praticamente qualquer esforço e, por isso mesmo, uma atração turística muito conhecida em La Paz. Desde que você já tenha aclimatado em La Paz por uns dois dias, deverá sentir apenas um pouco de cansaço e talvez uma leve dor de cabeça devido à altitude, o famoso soroche.

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Eliseu, guia boliviano, à caminho do Charquini

O Nevado Charquini, mais um 5 mil, também fica próximo ao Huayna Potosí e o acesso se dá praticamente pela mesma estrada, fazendo um pequeno desvio à esquerda para se contornar o Chacaltaya e chegar até os refúgios construídos na base do Huayna. Dali, percorre-se uma trilha que segue ao lado de uma canaleta construída para trazer a água resultante do degelo do glaciar até uma pequena represa próxima. Neste dia, enfrentamos um grande congestionamento no trânsito sempre caótico entre La Paz e El Alto, e acabamos chegando na base da montanha um pouco tarde. Devido ao horário adiantado, decidimos não tentar chegar até o cume, pois sobraria muito pouco tempo para retornar até o refúgio ainda com a luz do dia. Caminhamos por cerca de 2 horas até a base do Charquini e levamos mais 1h30 para subir até metade do glaciar, onde foi possível treinar o uso de crampons e do piolet, ferramentas indispensáveis para a escalada do Huayna Potosí dali há alguns dias.

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No glaciar do Charquini, praticando o uso dos equipos de gelo

Não era minha primeira vez utilizando crampons para caminhar no gelo (uma peça formada por um conjunto de pontas destinados a serem presos à sola da bota do alpinista ou do escalador para permitir a sua progressão). Já havia feito isso em um trekking no glaciar Perito Moreno, na Patagônia Argentina. Não tem muito segredo depois que você pega o jeito, mas é um detalhe a mais a ser aprendido no caso de escaladas em montanhas nevadas. É preciso caminhar com as pernas ligeiramente afastadas para evitar que as pontas dos crampons enrosquem nas botas ou na própria calça e tomar cuidado para não “virar o pé” e torcer o tornozelo no caso de superfícies muito íngremes.

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“Acampamento” alto do Huayna Potosí

Depois de cumprir o processo de aclimatação como planejado e de praticamente não sentir mais dores de cabeça e nem cansaço excessivo devido à altitude, estava chegando o momento de encarar a escalada. Na véspera, saímos de La Paz por volta das 9h30 da manhã, fizemos uma parada rápida para comprar o almoço em El Alto e por volta das 12h chegamos ao acampamento base do Huayna Potosí. Comemos rapidamente e logo em seguida já começamos a nos preparar para iniciar a subida até o acampamento alto. Foram 2h30 de caminhada morro acima, saindo de 4700m e chegando até os 5130m onde passaríamos a noite. Andrés, que seria o guia da minha cordada logo mais, preparou o jantar para o grupo e às 18h eu já estava deitado em uma tentativa ingrata de tentar dormir o máximo que fosse possível.

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Hora do jantar no acampamento alto

A altitude e a ansiedade tornavam muito difícil qualquer chance de um cochilo. O acampamento alto é como se fosse uma cabana compartilhada entre diversas agências e guias particulares. Às 23h30, as luzes foram acesas e todos começaram a se preparar para a subida. Uma calça térmica e outra impermeável por cima, uma segunda pele, um fleece, um blusa impermeável com capuz, polainas, botas rígidas, luvas para neve, lenço para proteger o pescoço e nariz, cadeirinha de escalada, capacete, lanterna de cabeça e uma mochila com água e chocolate. Faltava alguma coisa? Tomei uns goles de chá de coca para tentar me aquecer melhor e à 1h30 da manhã deixamos o conforto do refúgio para encarar -8ºC de temperatura e um vento malandro que insistia em tornar tudo ainda mais gelado e sofrido.

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Um breve momento de descanso durante a subida

O primeiro trecho é de uma escalaminhada sobre rochas que estavam cobertas com uma fina camada de gelo, o que tornava indispensável o uso de cordas fixas para evitar o risco de quedas. Após uns 30 minutos chegamos à um ponto a partir do qual o uso de crampons seria necessário. Devidamente calçados e encordados, começamos a lenta e constante subida até o cume. A estratégia era subir devagar mas sem fazer paradas muito longas para descanso. O frio é muito intenso e você começa a congelar quando diminui a circulação de sangue pelo organismo. Andrés seguia na frente guiando e eu buscava acompanhar na medida do possível. Em alguns momentos, não tinha jeito: “- Andrés, un momento, por favor. Estoy muy cansado”. Ele se virava pra checar meu estado e pacientemente aguardava que eu recuperasse um pouco de forças. Depois de um trecho muito inclinado de uns 50 metros, em que é preciso utilizar o piolet para conseguir subir, eu achei que não conseguiria mais continuar.  Pedi para pararmos por um instante, mas estávamos em um local muito exposto ao vento forte e tive que continuar em frente quase me arrastando.  Em nenhum momento pensei em desistir, só tinha receio de simplesmente apagar com o cansaço e o esforço físico bem acima do que estava acostumado a enfrentar por aqui nas montanhas da nossa “Cordillera de la Mantiqueira”. Resolvi tentar me concentrar apenas na minha própria respiração e continuar subindo, um passo de cada vez. Puxava o ar congelante o mais fundo que podia. As botas rígidas próprias para gelo e neve já estavam cobrando o preço da regra mais simples do trekking: nunca utilize uma bota pela primeira vez em uma longa caminhada sem antes se acostumar com elas. Duas bolhas se formavam pouco acima dos meus calcanhares.

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Escaladores no cume do Huayna Potosí

Passo a passo, continuamos em frente e depois de atravessarmos um trecho de rochas bastante exposto, Andrés me cumprimentou e avisou que havíamos chegado ao cume. Talvez se ele não dissesse nada, eu teria continuado subindo até não sei onde. Me sentia meio desorientado, efeito da altitude e do ar rarefeito aliados ao esforço físico extenuante. Me encostei em uma crista que existe próxima ao cume e pude finalmente descansar um pouco.

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Eu e Andrés, o guia da cordada, próximos ao cume do Huayna Potosí

Éramos a segunda dupla daquele dia a chegar ao topo. Lá de cima podíamos ver dois grupos que retornavam antes do trecho de rocha. Haviam desistido. Logo outros escaladores chegaram e tiravam fotos para registrar aquele momento de conquista e superação individual. Eu dizia baixinho pra mim mesmo “Nossa, tenho que tirar umas fotos também”, mas não me mexia pra  retirar a mochila das costas e nem pra pegar a câmera ali guardada. Só queria ficar ali quietinho descansando. Andrés me avisou que logo deveríamos começar a descida, e finalmente me animei e registrei algumas imagens dos outros escaladores e do sol que mal acabava de nascer.

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Travessia do trecho de rochas na hora da descida

Descansamos mais um pouco, e iniciamos o caminho de volta. Foram 5h de subida e cerca de 3h para retornar ao acampamento alto. Ao contrário da escalada até o cume, a descida é marcada por muito calor. O sol refletido na neve e no gelo torna a superfície da montanha um verdadeiro microondas a céu aberto. Ao retirar os crampons no final da descida, me peguei pensando se tudo aquilo havia valido à pena. Afinal, era muito esforço para poucos minutos no topo da montanha. No dia seguinte, já em La Paz, ao rever as imagens e os horários das fotos que tinham sido tiradas no cume, percebi que entre a primeira e a última foto haviam se passado 47 minutos. Permanecemos lá no alto por mais de uma hora e eu simplesmente não me lembrava. Mas sim, com absoluta certeza tudo isso valeu muito a pena e tomara que tenha sido somente o primeiro 6 mil que me permitiu chegar até seu topo!

“O que leva alguém a escalar montanhas é algo que a maioria dos que não fazem parte do mundo dos montanhistas tem muita dificuldade para entender, se é que entende.” – Jon Krakauer no livro Sobre Homens e Montanhas.

Laguna Torre

El Chaltén é uma pequena cidade na Patagônia considerada a capital nacional do trekking na Argentina. Fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, e a partir dela, é possível percorrer diversas trilhas aos pés de suas principais montanhas – o Cerro Fitz Roy, ou El Chaltén, que deu o nome à cidade, e o Cerro Torre, que já foi considerado por muitos escaladores como a montanha mais difícil do mundo e, por um certo tempo, até mesmo impossível de ser escalada – uma inacreditável torre de granito com cerca de 1200 metros praticamente verticais da base até o cume.

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Trilha congelada no início da manhã

Em nosso segundo dia na cidade, Pri e eu saímos cedo para a trilha de 11 km até a Laguna Torre, relativamente próxima à base da montanha. São 4 horas de caminhada para se chegar até ela e mais 4 para retornar, além do tempo que você permanece no local e as paradas para comer e sacar fotos. Desde El Chaltén, existem duas trilhas que se unificam em um único sendero logo depois de 5 minutos de caminhada e que segue pelo vale do rio Fitz Roy. A noite tinha sido de muito frio e atravessamos uma área com imensas poças d’água congeladas. Na metade do trajeto, se chega à um mirador com uma impressionante vista panorâmica de toda a cadeia de montanhas que inclui a Torre Egger ¹ e o Fitz Roy, à direita do Cerro Torre

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Mirador Cerro Torre

Mais duas horas de caminhada e chegamos ao acampamento De Agostini, já bem próximos à Laguna, onde fizemos uma pausa para lanchar. Mais alguns metros de subida e finalmente avistamos a Laguna Torre. Diversos blocos de gelo flutuavam na superfície da laguna depois de se desprenderem do Glaciar Grande, localizado ao fundo.

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Pausa para o lanche no acampamento De Agostini

Encostei em uma pedra para descansar e observar aquele lugar quase surreal. Logo me peguei tentando respirar o mais profundo que podia, enchendo os pulmões com o ar gelado, como se isso pudesse me ajudar a gravar aquelas imagens na memória de forma a nunca mais me esquecer.

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Priscilla e Fernando sem fôlego

Ficamos ali juntos por um bom tempo e em seguida partimos para a subida até o Mirador Maestri ². Mais uma hora de caminhada até chegarmos em uma parte alta na lateral direita da laguna. Não é uma distância grande mas o caminho é cheio de pedras soltas e precisa ser percorrido com bastante cuidado.

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Mirador Maestri

No caminho de volta, me fiz uma pequena promessa de algum dia retornarmos para passar a noite no acampamento e conseguir ver as torres iluminadas pelo nascer do sol. Um reencontro com o lugar mais bonito do meu mundo até aqui. E que assim seja.

¹ Toni Egger e ² Cesare Maestri supostamente foram os dois primeiros escaladores a atingirem o cume do Cerro Torre em 1959. Egger morreu em uma avalanche quando retornavam da montanha e segundo Maestri, levou consigo as fotos que comprovariam a subida até o topo. Com sua façanha questionada, Maestri retornou em 1970 com uma furadeira acionada por um enorme compressor de ar que utilizou para perfurar a rocha e fixar as proteções, mas essa já é uma outra história..

Autor

chacaltayaMeu nome é Fernando Marcos Jr, sou paulista, nascido em Guaratinguetá (1978) e atualmente morando em Campinas. Sempre busquei aproveitar cada chance que tive para viajar e conhecer novos lugares e de uns tempos pra cá acabei me tornando um aprendiz de montanhista. Como também gosto muito de escrever, esse é um espaço pra contar as histórias desses lugares por onde estive. Sejam bem-vindos!