Escalando o Pequeño Alpamayo

O Alpamayo é uma montanha de 5947m de altitude, localizada na Cordillera Blanca, no Peru, e que ficou famosa por já ter sido considerada a mais bonita do mundo por uma revista alemã especializada em alpinismo. Pela semelhança com sua vizinha peruana, uma montanha boliviana localizada na Cordillera Real ficou conhecida como o Pequeño Alpamayo, e apesar de realmente ser um pouco menor, com 5370m, não perde quase em nada quando o quesito é a beleza de suas faces escarpadas e suas cristas afiadas, completamente nevadas. Com o objetivo final de tentar escalar o Illimani, a segunda maior montanha da Bolívia com 6438m, retornei à La Paz no inverno de 2017, procurando seguir os mesmos procedimentos de aclimatação adotados na subida ao Huayna Potosí em 2016. A ascensão ao topo do Pequeño Alpamayo seria uma preparação para encarar o gigante Illimani, podendo ser concluída em dois dias, saindo de La Paz pela manhã e pernoitando no acampamento base do maciço do Condoriri – um conjunto de montanhas que inclui também o Pico Áustria, a Pirâmide Blanca, o Ilusión e o próprio Condoriri, também conhecido como Cabeza del Condor.

Nevado Tarija e o Pequeño Alpamayo

Como ainda sou apenas um iniciante nesse mundo de alta montanha, foi preciso contratar um guia através de uma agência para encarar a escalada com um mínimo de segurança. No dia 31 de julho de 2017, pouco antes das 9h00 da manhã, cheguei ao antigo endereço da agência Hiking Bolivia na calle Sagarnaga, onde hoje funciona apenas um pequeno depósito de equipamentos, para me encontrar com o guia Rodolfo Layme, e pegar os últimos equipos que ainda me faltavam: um piolet de travessia, um par de polainas, capacete e cadeirinha. Saímos de La Paz por volta das 10h00 rumo à Rinconada – um pequeno rancho no final de uma longa estrada empoeirada e que é o ponto mais próximo das montanhas que o velho táxi dirigido por Rodolfo conseguiria alcançar. A viagem que normalmente levaria cerca de 2h, naquele dia por causa de protestos pela escassez de água na cidade de El Alto e bloqueios na estrada em diversos pontos, acabou demorando quase 5h e se tornando um verdadeiro martírio devido ao intenso calor dentro do carro, com todos os vidros fechados e sem ar-condicionado. Já aprendi que se existe algo que tem sempre 100% de chances de acontecer na Bolívia, é você enfrentar um protesto quando precisa se deslocar pelas estradas do país. O que ajudou a aliviar um pouco o sofrimento e passar o tempo foi o bate-papo com um casal brasileiro que contratou apenas o transporte até o acampamento base e que também estavam no carro-microondas: Laura e Pedro, escaladores do Rio de Janeiro com muita história pra contar. Os dois acabavam de passar uma semana completamente isolados em um local próximo ao Salar de Uyuni conhecido como Itália Perdida, uma formação rochosa no meio do nada. Eles me contaram como foi a aventura para conseguirem chegar até lá e a satisfação de conquistarem as primeiras vias da região (pra quem se interessar, eles montaram um guia completo das vias do local disponível aqui). Pedro já havia escalado diversas montanhas na Bolívia e me deu uma boa noção do que poderia esperar para o dia seguinte.

Rancho em Rinconada

Chegando em Rinconada, já por volta das 14h00, Rodolfo e eu almoçamos a comida previamente comprada em El Alto e ele se encarregou de contratar uma mula para levar os equipamentos até o acampamento base, à cerca de 2h dali. Essa caminhada de aproximação é bem tranquila e a vista das montanhas ao redor impressiona bastante. Chegando nos primeiros refúgios, próximos à laguna Chiarkota, uma má notícia: todos os locais estavam lotados de trekkers e não havia lugar para Rodolfo e eu dormimos naquela noite. Rodolfo comentou que talvez tivéssemos que bivakar (o que significa dormir praticamente ao relento), caso não encontrássemos vagas em um outro local, um pouco mais acima da laguna. Nesse outro refúgio, após conversar com o proprietário, felizmente conseguimos dois lugares para dormir, sendo que uma das vagas era na cozinha. Fui me deitar por volta das 20h00 e o plano era acordar à 01h00 para tomar um rápido café da manhã e começar a caminhada até a base do glaciar do Nevado Tarija, uma montanha vizinha de aproximadamente 5300m e que necessariamente precisa ser escalada primeiro, antes de se tentar chegar ao cume do Pequeño Alpamayo, de forma que seriam duas escaladas em uma.

Cardápio do almoço – arroz, frango e banana

Laura e Pedro à caminho do acampamento base do Condoriri

Rodolfo na caminhada de aproximação

Laguna Chiarkota com o Nevado Tarija ao fundo

Refúgio na base das montanhas

Suíte presidencial no refúgio

Por volta das 2h da madrugada do dia 01 de agosto, saímos do refúgio e iniciamos nossa caminhada pelo terreno rochoso que conduz até o início do glaciar. O tempo estava muito bom, sem nenhuma nuvem e com o céu bastante estrelado. A temperatura por volta dos -5ºC, não chegava a trazer uma sensação muito grande de frio, graças à ausência total do vento. Cerca de 1h depois, chegamos à base do glaciar e paramos para nos equiparmos com os crampons e nos encordarmos. Agora a subida ficava muito mais íngreme e o trajeto seguia um zigue-zague pela esquerda da rampa de gelo para depois seguir pela direita em linha diagonal quase direta rumo ao cume do Tarija. Às 06h30 da manhã alcançamos o topo, minutos antes do sol nascer.

Colocando os crampons para começar a subida do glaciar

Primeira visão completa do Pequeño Alpamayo do cume do Tarija

Rodolfo se preparando para desescalar as rochas do Tarija

Do cume do Tarija, é preciso desescalar um trecho de rochas de uns 70 metros, atravessar um colo entre as duas montanhas com algumas gretas fáceis de identificar e voltar a subir, agora pela rampa do Pequeño Alpamayo – uma pendente com forte inclinação desde o começo e que chega próximo aos 55º em alguns trechos. Rodolfo seguia na frente ditando o ritmo (-Más despacio, Rodolfo!) e eu tentava acompanhar alguns metros atrás. Esse tipo de progressão é conhecido por alguns como “à francesa” (há controvérsias!), quando o guia e o segundo sobem simultaneamente, sem proteções fixas entre os dois e sem reuniões. Um ótimo beta pra este tipo de escalada é: não caia! Principalmente se estiver guiando, já que o tranco pro segundo vai ser ainda mais difícil de segurar a queda. Felizmente o gelo da parede estava em boas condições e fincando as pontas dos crampons com um pouco de força, tinha-se uma boa sensação de segurança. O piolet de travessia, apesar de grande e desajeitado, também auxiliava na hora de buscar algum apoio para as mãos. Em 45 minutos desde o colo, chegamos no topo do Pequeño Alpamayo.

Nem tão “pequeño” assim

No cume do Pequeño Alpamayo

Bastante cansado por causa do esforço e da altitude, me sentei para descansar na pequena área do cume e contemplar a vista da Cordillera Real. À minha direita, o Huayna Potosí parecia ao alcance das mãos. Rodolfo saca algumas fotos minhas no estilo “Tenzing Norgay” no topo do Everest empunhando o piolet e em seguida abre a mochila e tira uma pequena garrafa de algo que ele chama de tequila lá de dentro. Sussurra algumas palavras como uma prece de agradecimento e derrama alguns goles na neve antes de beber. Para Pachamama, ele me explica. Salud! Também tomo um pouco da bebida e em seguida, começamos a nos preparar para o caminho de volta.

Selfie com meu amigo Huayna Potosí

Tequila para Pachamama

Primeiro era preciso desescalar, agora a rampa de gelo do Pequeño Alpamayo, atravessar o colo estreito entre as duas montanhas e retornar pelo trecho de pedras do Tarija. Cruzamos pela primeira vez desde que saímos do refúgio com outros escaladores, seguindo em grupo, logo depois de descerem pela escarpa rochosa. Hola, buenos días! Cumprimento e fico feliz de já estar no caminho contrário, descendo para uma altitude mais baixa em busca de um pouco mais de oxigênio.

Grupo no final da descida do Tarija, rumo ao Pequeño Alpamayo

A desgastante subida de volta ao cume do Tarija e mais gente chegando

Outro grupo no topo do Tarija e nós já começando a descida ao acampamento base

Me sentia bastante cansado e escalar de volta ao cume do Tarija foi um esforço muito grande. Novamente no topo, agora o caminho era só descida. Em 2h percorremos o trajeto que na ida havia levado 4h30 e às 11h00 da manhã já estávamos de volta ao refúgio. Me sentia completamente esgotado e meus músculos pareciam sofrer pequenos choques quando eu tentava esticar os braços ou as pernas. As solas dos pés estavam muito doloridas por causa da bota rígida e foi inesquecível o alívio que senti ao voltar a caminhar sem elas.

Rodolfo na descida do Tarija

Fim do glaciar – pausa para descansar e tirar os crampons

Um ano antes havia escalado o Huayna Potosí, cujo cume passa dos 6 mil metros e não me lembrava de ter sofrido tanto assim. E afinal, com o Pequeño Alpamayo sendo 700 metros mais baixo, fazia todo sentido que fosse um pouco mais fácil e menos desgastante. Mas não foi. E se fizeram valer três regras do montanhismo que nunca falham: é sempre mais longe do que parece, é sempre mais alto do que parece e é sempre mais difícil do que parece. Lembrei-me do Pedro dizendo que um dos pré-requisitos para quem quer subir montanhas é ter uma memória curta. Noites mal dormidas, madrugadas geladas, falta de apetite, calor de derreter quando se está caminhando, a mão que congela quando é preciso parar e retirar as luvas por poucos instantes, a bota que tritura cada ossinho dos pés, o esforço físico extenuante e principalmente a danada da altitude e sua miserável concentração de oxigênio. Você ainda se lembra do gigante Illimani do começo da história? Ficou pra quando todo o sofrimento já não estivesse mais na memória! Naquele momento, a hora era de voltar pra casa.

“A vida é reduzida ao básico: se você está aquecido, confortável, saudável, sem sede ou sem fome, então você não está em uma montanha. Escalar em altitude é como bater sua cabeça contra uma parede de tijolos – é ótimo quando você pára “. – Chris Darwin

No topo da Islândia

Assim que combinei com mais dois amigos que faríamos uma viagem pela Islândia, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi procurar uma montanha para subir. “Iceland highest peak” no Google e lá veio o palavrão: “Hvannadalshnúkur” (pronuncia-se “kwana-talsh-nukyr”), um pico piramidal na borda noroeste da cratera do vulcão Öræfajökull e que é o ponto mais alto da Islândia.” – segundo o Wikipedia. Na mesma pesquisa já veio também como chegar até lá: Icelandic Mountain Guides – a melhor agência de guias de montanha da Islândia, e acho que também a única que existe na ilha.

Hvannadalshnúkur ao fundo, visto do glaciar Vatnajökull

O topo do “Hvannadalsh” está a 2110m de altitude, o que não chega a ser grande coisa. A Pedra da Mina por exemplo, ponto mais alto do Estado de São Paulo, possui 2798m. O grande problema na montanha islandesa é que sua base está quase ao nível do mar e por isso são mais de 2km de elevação em uma trilha de 22km – ida e volta – percorridos entre 10 e 15h em média.

Nosso guias, Martin e Bia, passando instruções sobre os crampons

Na véspera da subida ocorre uma reunião com os guias e demais participantes do “passeio”, na sede da agência, próxima ao centro de visitantes do Parque Nacional Skaftafell. Nessa reunião, todos se apresentam e os guias nos perguntam se já temos algum tipo de experiência prévia em travessia de glaciares, uso de crampons e piolet e se estamos acostumados com caminhadas por longas distâncias e com grande esforço físico. Também nos alertam que os primeiros 600m de subida servirão como um teste de aptidão e que os que não se sentirem bem para continuar, deverão retornar neste ponto. Se você passar deste local e depois desistir de continuar, irá prejudicar todos que estiverem na mesma cordada que você, já que o guia terá que retornar junto e todos os demais também. Por isso, eles enfatizam que todos sejam bem conscientes no momento de tomar a decisão de continuar ou retornar. Ao todo, éramos em doze pessoas, sendo 10 clientes – duas islandesas, quatro norte-americanos, três canadenses e eu, pontepretano – e 2 guias – Martin, alemão de Stuttgart, e sua esposa Bia, brasileira de São Paulo. Quem diria! Encontrar uma guia de montanhas brasileira tão longe de casa! Pedi à Bia que se possível eu ficasse na mesma cordada que ela, já que meu inglês não é lá essa fluência toda.

Hotel da véspera

Reunião encerrada, fui organizar os equipamentos e tentar descansar um pouco. O plano era dormir no carro e acordar às 2h da manhã para trocar de roupa, comer alguma coisa e encontrar os guias e os demais às 3h. Péssimo plano, já que foi quase impossível pegar no sono devido ao frio e à ansiedade. Se eu fechar as janelas do carro, será que não vou sufocar aqui dentro? Será que a bota alugada não vai me machucar? Por que não trouxe a minha própria bota? Será que teremos muito vento? Minhas roupas vão dar conta se tiver muita neve? Fui o primeiro a chegar no ponto de encontro, e logo depois, chegaram Bia e Martin com a van que nos levaria até a base da montanha, à uns 15 minutos dali.

Primeiro trecho de subida

Os tais primeiros 600m de elevação realmente te fazem repensar se deve continuar ou não, e um casal de norte-americanos achou melhor desistir e retornar a partir dali. Para alguns uma decisão dessas pode ser vista como um fracasso, mas sem dúvida, reconhecer as próprias limitações e evitar prejudicar o resto do grupo com uma desistência posterior foi uma grande demonstração de humildade.

Parada para colocar os crampons

Por volta dos 1000m de elevação, o trecho de rochas expostas fica para trás e surge um enorme campo de gelo que parece infinito. Trata-se de uma borda do glaciar Vatnajökull, a segunda maior calota de gelo da Europa e que cobre 8% do território da Islândia. A espessura de sua camada de gelo pode atingir até 1km. Nesse momento, fizemos uma parada para colocar os crampons e nos encordarmos. Nota do autor: fui o primeiro a terminar de colocar os crampons e ganhei até um elogio do guia alemão: “Super! Not bad for a brazilian!”. Não sei se disse isso pra me incentivar ou para tirar onda com a esposa brasileira!

O Sol indica onde fica o céu

Por diversas vezes durante a subida precisamos interromper o passo para colocar ou retirar camadas de roupas para tentar regular a temperatura. O tempo estava bem frio e bem fechado, com pequenos chuviscos de neve e um pouco de vento. Porém, quando o Sol mostrava um pouco sua força e estávamos nos movimentando, o calor era muito grande e nessas condições a tendência é que as roupas fiquem rapidamente molhadas de suor. Quando isso acontece é terrível, pois minutos depois, o frio volta ainda mais forte.

No topo da Islândia

Depois de 7h de caminhada chegamos ao topo. A visibilidade estava bem limitada por causa de um “whiteout” que nos acompanhou quase o tempo todo. Ficamos por volta de uns 40 minutos no cume descansando, comendo lanches e tirando fotos. Metade do caminho percorrido, era hora de começar a descida. O cansaço já era grande e a neve, por causa do horário e do tempo mais quente, ficou muito fofa no caminho de volta. Por vezes, a cada passo dado a perna afundava na neve até os joelhos.

Pesadelo branco

Depois de umas 3h cruzando o glaciar, quando eu já tinha certeza que estava preso em um pesadelo branco sem fim, chegamos novamente na parte de rochas e pudemos retirar os crampons das botas. Logo depois, uma das canadenses do meu grupo, torceu o joelho ao escorregar em uma pedra e tivemos que parar por uns 10 minutos até que ela se sentisse em condições de continuar. Com ela seguindo na frente do grupo, lentamente seguimos descendo, já sem a necessidade da utilização de cordas ou capacetes.

Descendo sobre rochas

No final, depois de 5h de descida, veio o alívio de enxergar novamente a estrada que nos levaria de volta até o Parque Skaftafell. Só nesse momento que me dei conta de que havia ingerido todos os 3 litros de água que levei e nem sequer uma única vez parei para fazer xixi, tamanho o esforço físico que foi necessário. Chegando ao Parque, me despedi do resto do grupo e corri pra comprar uma ficha que me daria direito à um merecido banho com água quentinha nos chuveiros do camping, roupas secas e um calçado confortável logo depois. O corpo destruído de cansaço mas com um sentimento de grande satisfação por ter conseguido ir até o fim. Não se trata de uma montanha técnica, que exija grandes conhecimentos de escalada. O básico você aprende na hora mesmo, como por exemplo, manter a corda sempre do lado mais exposto da enconsta e retirar a neve acumulada nos crampons sem precisar parar o tempo todo. Além disso, depois de um tempo você pega o jeito do tal “keep the rope smiling” de forma que o trecho de corda entre você e quem vai à frente forme um arco, sem que fique esticada demais ou frouxa demais caída no chão.

Até a próxima e boas escaladas!

Olhando essa foto percebi a quantidade de sais eliminados e acumulados no rosto por causa da transpiração

Santiago do Chile

Dicas para uma primeira viagem a Santiago do Chile

Advertência: as dicas contidas neste post não tem a presunção de esgotarem pesquisas mais detalhadas sobre o assunto e nem tão pouco serem válidas para todos os gostos e tipos de viajantes. Elas apenas refletem as experiências e impressões pessoais do autor.

Chegando em Santiago

A maneira mais comum é chegar de avião pelo Aeroporto Internacional Arturo Merino Benítez (código SCL) que fica aproximadamente a 19 km do bairro Providencia. Esse bairro é cheio de bares, restaurantes, estações de metrô e permite que você possa visitar a pé algumas das atrações da cidade. Para chegar lá saindo do aeroporto, você pode utilizar os serviços da Transvip (www.transvip.cl) que oferecesse táxis comuns ou táxis compartidos, que saem bem mais em conta. Eles possuem uma tabela com preço fixo dependendo do bairro de destino. Assim, não há que se preocupar com a possibilidade de ser enganado pelo taxista assim que chegar na cidade. Infelizmente essa é uma realidade em muitas cidades sulamericanas. A Transvip possui um balcão logo na saída da área de desembarque e os vendedores costumam abordar os passageiros oferecendo o transporte. Dica: tanto faz aceitar a oferta ou ir até o balcão da empresa, o preço cobrado será o mesmo.

Bairro Providencia e a sempre constante Cordillera no horizonte

Onde ficar

Como já mencionado, o bairro Providencia é uma das melhores opções para se hospedar. Minha sugestão, para economizar um dinheiro razoável, é evitar os hotéis que costumam ser bem caros em Santiago e ficar em um apartamento particular. Você pode pesquisar tanto no www.booking.com como no www.airbnb.com. Em ambos deverão aparecer apartamentos do edifício da calle Dardignac nº 28, próximo ao Patio Bellavista – um pequeno complexo com lojinhas de artesanato, souvenirs, bares, restaurantes e também, com absoluta certeza, a maior concentração de brasileiros por metro quadrado de todo território chileno. Clique aqui para ver o apartamento em que ficamos na última vez, em 2014. Alugamos este apartamento pelo AirBnb, a chave estava na portaria quando chegamos e na saída voltamos a deixar a chave lá. Ficando em um apartamento, você pode comprar comida em algum supermercado próximo, preparar um macarrão, pedir uma pizza, fazer o café da manhã e economizar mais um pouco de dinheiro. Há muitos restaurantes próximos, porém, sair pra comer fora todos os dias, dependendo de quantos dias você pretende ficar na cidade, certamente irá custar uma boa parte do seu orçamento. Santiago está longe de ser uma cidade barata. Dica: nos supermercados você pode encontrar, além de comida, garrafas de vinho de 2 litros mais baratas que refrigerante.

Ex-pizza e vinho

 Onde beber

Ali mesmo próximo ao Patio Bellavista,  existem diversos bares onde você pode tomar uma nem sempre gelada Cerveza Escudo litrão baratinha, baratinha, ficar borracho e sair colocando em prática seu portunhol tentando compreender o complicado sotaque chileno. Lembrando que em Santiago, e provavelmente no Chile todo, é proibido sair bebendo em vias públicas. Se for pego poderá ser multado pelos sempre presentes Carabineros de Chile. Dica: coloque vinho em um garrafinha de plástica de água e seja feliz.

Infração penal em curso

Porém, se quiser conhecer um bar muito mais legal, o Liguria é uma grande opção. Diria até que imperdível. Fica a mais ou menos 4 km do Patio Bellavista, na Av. Providencia 1373.

Bar Liguria, Av. Providencia 1373, Providencia, metrô Manuel Montt

Dica: vá de táxi ou metrô e volte a pé, embriagado, tirando fotos sem foco e se divertindo com os cachorros de rua no frio congelante.

Por las calles con los perros

Como chegar aos centros de ski

No mesmo no bairro Providencia, tome o metrô linha 1 (vermelha) na estação Baquedano sentido Los Dominicos e desça na estação Escuela Militar. Saindo do metrô, caminhe 550 metros subindo pela avenida Apoquindo até o número 4900 (veja o mapa aqui). Nesse endereço fica a Ski Total (www.skitotal.cl). Essa agência fornece tudo que você irá precisar para conhecer os centros de ski próximos à Santiago. Ali é possível alugar todos os equipamentos, roupas pra neve, contratar transporte, comprar os tickets para os centros de ski e reservar uma aula de ski ou snowboarding, em grupo ou individual. Se você não faz o tipo esportista e pretende apenas conhecer a neve, bastaria contratar o transporte e eventualmente alugar alguma roupa impermeável pra neve caso você não disponha. O ticket para os centros de ski na verdade é um ticket para que você possa usar os teleféricos que te levam montanha acima pra depois descer esquiando. No site da Ski Total você pode consultar previamente todos os valores cobrados pelo aluguel de roupas e equipamentos, além do transporte e os ingresso para as estações de ski. Dica: vá na véspera na agência na parte da tarde e já faça as reservas das roupas e efetue o pagamento. No dia do passeio, chegue o mais cedo possível na loja, de preferência pouco antes dela abrir. Isso te fará economizar um bom tempo em filas para experimentar as roupas e retirar os equipamentos alugados. É uma grande confusão de gente se apertando pra provar roupas e escolher equipamentos. À medida que as pessoas vão ficando prontas, os lugares nas vans de transporte vão sendo preenchidos e os motoristas partem rumo às montanhas. Assim, quanto antes você estiver pronto, maior a chance de pegar um lugar nas primeiras vans que saírem. Se for possível, prefira visitar os centros em dia úteis. Em geral as pistas estarão mais vazias (cheios de turistas brasileiros mas com poucos chilenos) e você pode conseguir alguma promoção no preço dos tickets. Da última vez que estive lá, em uma sexta-feira, na compra de um ticket você ganhava outro de graça. Dica: compre e leve de Santiago toda comida e bebida que for consumir durante o dia no centro de ski, já que uma simples lata de coca-cola pode sair fácil, fácil, por uns 30 reais – sem canudinho.

Motorista colocando correntes nos pneus devido ao gelo na estrada de subida ao Valle Nevado

Valle Nevado, La Parva, El Colorado e Portillo

São esses os centros de ski mais próximos à Santiago. La Parva e Portillo eu não conheço. Em El Colorado os tickets são um pouco mais baratos do que no Valle Nevado e a estação de ski também é mais próxima de Santiago, o que te faz economizar uns 40 minutos de viagem. Porém a estrutura de teleféricos em El Colorado é bem menor. Se você já manja dos paranauê de ski ou snowboarding, essa pode ser uma boa opção. No meu caso, o grande problema é o teleférico usado pra subir a montanha. Nele você precisa ficar o tempo todo com os skis ou a prancha de snowboarding presa ao pé e na hora de descer você simplesmente desliza suavemente ou se espatifa no chão cada vez que precisa utilizá-los. Dica: vá para o Valle Nevado.

Subindo a montanha em El Colorado: pronto pra cair de novo?

Valle Nevado

No Valle Nevado o principal teleférico não é uma cadeirinha como em El Colorado. É uma gôndula parecida com aquelas de rodas-gigantes. Os skis e as pranchas vão do lado de fora. Pra descer é muito simples e sem complicações de natureza gravitacional.

Valle Nevado – Pri e Rafa (aluna principiante e instrutor de ski formado no YouTube)

Ski ou Snowboard?

Ski eu considero mais fácil de se divertir logo na primeira tentativa.  É mais fácil ficar de pé nas partes planas e você consegue usar os bastões para ajudar no equilíbrio. Porém, nas partes mais inclinadas, você começa a pegar velocidade rapidamente e conseguir parar sem cair pode não ser tão simples. Já com o snowboard, é muito difícil ficar de pé nas partes mais planas, e por incrível que pareça, é fácil descer devagarzinho quando a inclinação é maior. De qualquer forma, nos dois casos, uma aula inicial é bastante indicada.

Vinícolas – Concha y Toro

Sobre isso eu não tenho dica alguma, mas sei quem tem! Usamos as informações desse post aqui (www.matraqueando.com.br/chile-como-ir-por-conta-a-vinicola-concha-y-toro) e optamos por ir por conta própria utilizando metrô e depois um táxi. No final do post tem os detalhes de como chegar até lá.

Acho que é isso, boa viagem! E volte ao Chile quantas vezes puder!

Huayna Potosí

“Os dias que estes homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem. Quando a mente se limpa das teias de aranha e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos recobram a vitalidade e o homem completo se torna mais sensível, e então já pode ouvir as vozes da natureza, e ver as belezas que só estão ao alcance dos mais ousados.” – Reinhold Messner.

O autor dessa frase é considerado por muitos o maior alpinista de todos os tempos, tendo sido o primeiro escalador a atingir o cume de todas as 14 montanhas acima de 8 mil metros sem oxigênio complementar, alguma delas em solitário. Muito, mas muito longe disso, meu objetivo era bem mais humilde: tentar chegar ao cume do Huayna Potosí, montanha de 6088m de altitude, à cerca de 2h de La Paz, Bolívia. Mesmo modesto diante de tantas outras montanhas mais técnicas e muito mais difíceis, os efeitos da altitude em um 6 mil não poderiam jamais serem deixados de lado.  Depois de muita pesquisa sobre o assunto, quando se fala em escalada de alta montanha, ficou claro que o segredo para sair bem sucedido se apoiaria no tripé – hidratação, descanso e aclimatação.

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Altiplano boliviano com o Huayna Potosí ao fundo

O altiplano boliviano, onde fica a base da montanha e também o principal aeroporto para se chegar a La Paz, está situado à aproximadamente 4 mil metros. Quando você desce do avião em El Alto, uma das cidades com maior altitude do mundo, o efeito da baixa pressão atmosférica no seu corpo é instantâneo: dores de cabeça, cansaço, sonolência, taquicardia e respiração acelerada. Aliada à tudo isso, a pouca umidade relativa do ar ajuda a tornar cada inspiração um pequeno sacrifício. Em um ambiente como estes com ar rarefeito, ao detectar a baixa presença de oxigênio na atmosfera, o corpo começa a produzir mais glóbulos vermelhos. O aumento na presença destes, junto com a desidratação devida ao ar extremamente seco, faz com que o sangue fique mais espesso, o que pode trazer problemas à tecidos pulmonares e cerebrais.

A oxi-hemoglobina presente nas hemácias é capaz de carregar 98-99% de todo oxigênio presente no sangue e pode ser visualizada através da saturação de oxigênio, medida pelo oxímetro de pulso. Em outras palavras, esse aparelho verifica indiretamente a quantidade de oxigênio no sangue e permite ter uma noção do quanto seu corpo está sofrendo com essas condições adversas, servindo também para monitorar a evolução no processo de aclimatação. Leituras normais para indivíduos saudáveis ficam entre 97% e 100% quando medidas ao nível do mar. No dia seguinte após chegar em La Paz, eu apresentava uma taxa de apenas 89%. Se não fosse devido à altitude, seria um caso passível de internação, UTI e intubação traqueal!

oximetro

Oxímetro utilizado para medir a saturação de O2 no sangue

A estratégia seria descansar bastante, caminhar lentamente pelas ruas de La Paz e tomar pelo menos 4 litros de líquidos diariamente, principalmente nos dois primeiros dias após a chegada. Felizmente existem diversos “baños publicos” pelas ruas da cidade que cobram apenas 1 boliviano para serem utilizados. Bebendo tanto líquido, não conseguia ficar mais do que 30 minutos sem fazer xixi. Acho que conheci todos os baños da capital pacenã!

Las calles de La Paz

Las calles de La Paz

Além disso, era preciso um plano para tornar a aclimatação mais efetiva. Para isso, um processo já consagrado consiste em subir alto e dormir baixo, ou seja, atingir altitudes mais altas durante o dia e descer para dormir em um local com altitude menor. Assim, como preparação para o Huayna Potosí, me programei para subir duas outras montanhas, o Chacaltaya, com 5421m e o Nevado Charquini, com 5390m. Nos dois casos, retornaria à La Paz no final do dia para dormir nos seus “confortáveis” e bem oxigenados 3600m. Também resolvi que seria melhor incluir pelo menos um dia de descanso entre uma ascensão e outra.

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Turistas à caminho do cume do Chacaltaya

O Chacaltaya é uma antiga estação de esqui, a mais alta do mundo durante seu funcionamento, mas que hoje está desativada devido à baixa quantidade de neve no local, situação considerada por muitos como uma evidência do aquecimento do planeta. A montanha fica bem próxima ao Huayna Potosí e o acesso é feito por uma estrada estreita e bastante íngreme, mas que permite que se chegue até bem próximo ao cume, sendo preciso continuar caminhando por cerca de apenas mais 200m para se atingir o topo. Sem dúvidas é um dos pontos mais altos que se consegue atingir sem praticamente qualquer esforço e, por isso mesmo, uma atração turística muito conhecida em La Paz. Desde que você já tenha aclimatado em La Paz por uns dois dias, deverá sentir apenas um pouco de cansaço e talvez uma leve dor de cabeça devido à altitude, o famoso soroche.

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Eliseu, guia boliviano, à caminho do Charquini

O Nevado Charquini, mais um 5 mil, também fica próximo ao Huayna Potosí e o acesso se dá praticamente pela mesma estrada, fazendo um pequeno desvio à esquerda para se contornar o Chacaltaya e chegar até os refúgios construídos na base do Huayna. Dali, percorre-se uma trilha que segue ao lado de uma canaleta construída para trazer a água resultante do degelo do glaciar até uma pequena represa próxima. Neste dia, enfrentamos um grande congestionamento no trânsito sempre caótico entre La Paz e El Alto, e acabamos chegando na base da montanha um pouco tarde. Devido ao horário adiantado, decidimos não tentar chegar até o cume, pois sobraria muito pouco tempo para retornar até o refúgio ainda com a luz do dia. Caminhamos por cerca de 2 horas até a base do Charquini e levamos mais 1h30 para subir até metade do glaciar, onde foi possível treinar o uso de crampons e do piolet, ferramentas indispensáveis para a escalada do Huayna Potosí dali há alguns dias.

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No glaciar do Charquini, praticando o uso dos equipos de gelo

Não era minha primeira vez utilizando crampons para caminhar no gelo (uma peça formada por um conjunto de pontas destinados a serem presos à sola da bota do alpinista ou do escalador para permitir a sua progressão). Já havia feito isso em um trekking no glaciar Perito Moreno, na Patagônia Argentina. Não tem muito segredo depois que você pega o jeito, mas é um detalhe a mais a ser aprendido no caso de escaladas em montanhas nevadas. É preciso caminhar com as pernas ligeiramente afastadas para evitar que as pontas dos crampons enrosquem nas botas ou na própria calça e tomar cuidado para não “virar o pé” e torcer o tornozelo no caso de superfícies muito íngremes.

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“Acampamento” alto do Huayna Potosí

Depois de cumprir o processo de aclimatação como planejado e de praticamente não sentir mais dores de cabeça e nem cansaço excessivo devido à altitude, estava chegando o momento de encarar a escalada. Na véspera, saímos de La Paz por volta das 9h30 da manhã, fizemos uma parada rápida para comprar o almoço em El Alto e por volta das 12h chegamos ao acampamento base do Huayna Potosí. Comemos rapidamente e logo em seguida já começamos a nos preparar para iniciar a subida até o acampamento alto. Foram 2h30 de caminhada morro acima, saindo de 4700m e chegando até os 5130m onde passaríamos a noite. Andrés, que seria o guia da minha cordada logo mais, preparou o jantar para o grupo e às 18h eu já estava deitado em uma tentativa ingrata de tentar dormir o máximo que fosse possível.

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Hora do jantar no acampamento alto

A altitude e a ansiedade tornavam muito difícil qualquer chance de um cochilo. O acampamento alto é como se fosse uma cabana compartilhada entre diversas agências e guias particulares. Às 23h30, as luzes foram acesas e todos começaram a se preparar para a subida. Uma calça térmica e outra impermeável por cima, uma segunda pele, um fleece, um blusa impermeável com capuz, polainas, botas rígidas, luvas para neve, lenço para proteger o pescoço e nariz, cadeirinha de escalada, capacete, lanterna de cabeça e uma mochila com água e chocolate. Faltava alguma coisa? Tomei uns goles de chá de coca para tentar me aquecer melhor e à 1h30 da manhã deixamos o conforto do refúgio para encarar -8ºC de temperatura e um vento malandro que insistia em tornar tudo ainda mais gelado e sofrido.

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Um breve momento de descanso durante a subida

O primeiro trecho é de uma escalaminhada sobre rochas que estavam cobertas com uma fina camada de gelo, o que tornava indispensável o uso de cordas fixas para evitar o risco de quedas. Após uns 30 minutos chegamos à um ponto a partir do qual o uso de crampons seria necessário. Devidamente calçados e encordados, começamos a lenta e constante subida até o cume. A estratégia era subir devagar mas sem fazer paradas muito longas para descanso. O frio é muito intenso e você começa a congelar quando diminui a circulação de sangue pelo organismo. Andrés seguia na frente guiando e eu buscava acompanhar na medida do possível. Em alguns momentos, não tinha jeito: “- Andrés, un momento, por favor. Estoy muy cansado”. Ele se virava pra checar meu estado e pacientemente aguardava que eu recuperasse um pouco de forças. Depois de um trecho muito inclinado de uns 50 metros, em que é preciso utilizar o piolet para conseguir subir, eu achei que não conseguiria mais continuar.  Pedi para pararmos por um instante, mas estávamos em um local muito exposto ao vento forte e tive que continuar em frente quase me arrastando.  Em nenhum momento pensei em desistir, só tinha receio de simplesmente apagar com o cansaço e o esforço físico bem acima do que estava acostumado a enfrentar por aqui nas montanhas da nossa “Cordillera de la Mantiqueira”. Resolvi tentar me concentrar apenas na minha própria respiração e continuar subindo, um passo de cada vez. Puxava o ar congelante o mais fundo que podia. As botas rígidas próprias para gelo e neve já estavam cobrando o preço da regra mais simples do trekking: nunca utilize uma bota pela primeira vez em uma longa caminhada sem antes se acostumar com elas. Duas bolhas se formavam pouco acima dos meus calcanhares.

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Escaladores no cume do Huayna Potosí

Passo a passo, continuamos em frente e depois de atravessarmos um trecho de rochas bastante exposto, Andrés me cumprimentou e avisou que havíamos chegado ao cume. Talvez se ele não dissesse nada, eu teria continuado subindo até não sei onde. Me sentia meio desorientado, efeito da altitude e do ar rarefeito aliados ao esforço físico extenuante. Me encostei em uma crista que existe próxima ao cume e pude finalmente descansar um pouco.

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Eu e Andrés, o guia da cordada, próximos ao cume do Huayna Potosí

Éramos a segunda dupla daquele dia a chegar ao topo. Lá de cima podíamos ver dois grupos que retornavam antes do trecho de rocha. Haviam desistido. Logo outros escaladores chegaram e tiravam fotos para registrar aquele momento de conquista e superação individual. Eu dizia baixinho pra mim mesmo “Nossa, tenho que tirar umas fotos também”, mas não me mexia pra  retirar a mochila das costas e nem pra pegar a câmera ali guardada. Só queria ficar ali quietinho descansando. Andrés me avisou que logo deveríamos começar a descida, e finalmente me animei e registrei algumas imagens dos outros escaladores e do sol que mal acabava de nascer.

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Travessia do trecho de rochas na hora da descida

Descansamos mais um pouco, e iniciamos o caminho de volta. Foram 5h de subida e cerca de 3h para retornar ao acampamento alto. Ao contrário da escalada até o cume, a descida é marcada por muito calor. O sol refletido na neve e no gelo torna a superfície da montanha um verdadeiro microondas a céu aberto. Ao retirar os crampons no final da descida, me peguei pensando se tudo aquilo havia valido à pena. Afinal, era muito esforço para poucos minutos no topo da montanha. No dia seguinte, já em La Paz, ao rever as imagens e os horários das fotos que tinham sido tiradas no cume, percebi que entre a primeira e a última foto haviam se passado 47 minutos. Permanecemos lá no alto por mais de uma hora e eu simplesmente não me lembrava. Mas sim, com absoluta certeza tudo isso valeu muito a pena e tomara que tenha sido somente o primeiro 6 mil que me permitiu chegar até seu topo!

“O que leva alguém a escalar montanhas é algo que a maioria dos que não fazem parte do mundo dos montanhistas tem muita dificuldade para entender, se é que entende.” – Jon Krakauer no livro Sobre Homens e Montanhas.

Laguna Torre

El Chaltén é uma pequena cidade na Patagônia considerada a capital nacional do trekking na Argentina. Fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, e a partir dela, é possível percorrer diversas trilhas aos pés de suas principais montanhas – o Cerro Fitz Roy, ou El Chaltén, que deu o nome à cidade, e o Cerro Torre, que já foi considerado por muitos escaladores como a montanha mais difícil do mundo e, por um certo tempo, até mesmo impossível de ser escalada – uma inacreditável torre de granito com cerca de 1200 metros praticamente verticais da base até o cume.

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Trilha congelada no início da manhã

Em nosso segundo dia na cidade, Pri e eu saímos cedo para a trilha de 11 km até a Laguna Torre, relativamente próxima à base da montanha. São 4 horas de caminhada para se chegar até ela e mais 4 para retornar, além do tempo que você permanece no local e as paradas para comer e sacar fotos. Desde El Chaltén, existem duas trilhas que se unificam em um único sendero logo depois de 5 minutos de caminhada e que segue pelo vale do rio Fitz Roy. A noite tinha sido de muito frio e atravessamos uma área com imensas poças d’água congeladas. Na metade do trajeto, se chega à um mirador com uma impressionante vista panorâmica de toda a cadeia de montanhas que inclui a Torre Egger ¹ e o Fitz Roy, à direita do Cerro Torre

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Mirador Cerro Torre

Mais duas horas de caminhada e chegamos ao acampamento De Agostini, já bem próximos à Laguna, onde fizemos uma pausa para lanchar. Mais alguns metros de subida e finalmente avistamos a Laguna Torre. Diversos blocos de gelo flutuavam na superfície da laguna depois de se desprenderem do Glaciar Grande, localizado ao fundo.

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Pausa para o lanche no acampamento De Agostini

Encostei em uma pedra para descansar e observar aquele lugar quase surreal. Logo me peguei tentando respirar o mais profundo que podia, enchendo os pulmões com o ar gelado, como se isso pudesse me ajudar a gravar aquelas imagens na memória de forma a nunca mais me esquecer.

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Priscilla e Fernando sem fôlego

Ficamos ali juntos por um bom tempo e em seguida partimos para a subida até o Mirador Maestri ². Mais uma hora de caminhada até chegarmos em uma parte alta na lateral direita da laguna. Não é uma distância grande mas o caminho é cheio de pedras soltas e precisa ser percorrido com bastante cuidado.

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Mirador Maestri

No caminho de volta, me fiz uma pequena promessa de algum dia retornarmos para passar a noite no acampamento e conseguir ver as torres iluminadas pelo nascer do sol. Um reencontro com o lugar mais bonito do meu mundo até aqui. E que assim seja.

¹ Toni Egger e ² Cesare Maestri supostamente foram os dois primeiros escaladores a atingirem o cume do Cerro Torre em 1959. Egger morreu em uma avalanche quando retornavam da montanha e segundo Maestri, levou consigo as fotos que comprovariam a subida até o topo. Com sua façanha questionada, Maestri retornou em 1970 com uma furadeira acionada por um enorme compressor de ar que utilizou para perfurar a rocha e fixar as proteções, mas essa já é uma outra história..

Autor

chacaltayaMeu nome é Fernando Marcos Jr, sou paulista, nascido em Guaratinguetá (1978) e atualmente morando em Campinas. Sempre busquei aproveitar cada chance que tive para viajar e conhecer novos lugares e de uns tempos pra cá acabei me tornando um aprendiz de montanhista. Como também gosto muito de escrever, esse é um espaço pra contar as histórias desses lugares por onde estive. Sejam bem-vindos!